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Opinião: O humor pode ser à vontade do freguês, mas a Liberdade não

28 de junho de 2025 às 11 h47
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Um milhão de euros. É este o valor que os Anjos exigem à humorista Joana Marques, como indemnização pelos alegados danos que o vídeo que satiriza a interpretação do hino nacional no Grande Prémio de MotoGP, em 2022, lhes terá causado. Um milhão, 118 mil e 500 euros, para ser mais exata. A dupla garante que a brincadeira de Joana Marques lhes foi altamente prejudicial e invoca o cancelamento de mais de uma dezena de concertos, contratos de patrocínio e de cedência de imagem, para além de danos de imagem e reputação. Um deles diz ter tido uma crise de acne, fruto da ansiedade que o vídeo lhe causou; outro diz ter escapado por pouco a uma depressão. A verdade é que os Anjos decidiram levar o caso a tribunal e alguém achou que ele devia ir a julgamento, portanto, temos agora a oportunidade de ver um tribunal responder, finalmente, à eterna questão: quais são os limites do humor?
Declaração de interesses: não sou particularmente fã da Joana Marques, embora reconheça que ela é uma mulher inteligente, preparada, que faz muito bem aquilo que faz (eu é que não sou apreciadora daquilo que ela faz). No entanto, não é disso que se trata este caso. Eu não preciso de achar piada à Joana Marques, para defender que ela tem todo o direito de fazer o humor que entender. Quem não gostar, não vê, que é o que eu faço, mas não precisa – nem pode – tentar calá-la. A grande dificuldade em aceitar que o humor tem limites é definir quais são esses limites. Até onde é que se pode ir? Quais são os temas proibidos? Quem é que o define? Com base em quê? Os limites do humor são pessoais: o que fere a minha sensibilidade pode ter muita piada para outra pessoa. Porque é que a minha sensibilidade é mais válida do que a de quem acha piada ao que eu acho lamentável?
Recentemente, a Justiça brasileira condenou o humorista Léo Lins a oito anos e três meses de prisão e, ainda, a uma multa de 1,4 milhões de reais e 303 mil reais por danos morais coletivos, por causa de um conjunto de piadas preconceituosas feitas num programa de stand-up comedy. As piadas em causa são de um extremo mau-gosto e visam essencialmente minorias, como as pessoas portadoras do vírus HIV, homossexuais, judeus e negros. Na minha opinião, é um tipo de humor lamentável, que me dá zero vontade de rir. Mas condenar um humorista a mais de oito anos de prisão por um conjunto de piadas infelizes é negar o que de melhor o humor nos dá: um espaço de absoluta liberdade, evasão e criatividade.
No dia em que os humoristas começarem a ter medo de ser processados – ou, pior, presos – o humor acaba, porque ele é fruto da Liberdade. E amar a Liberdade é amá-la sempre, mesmo – e especialmente – quando ela é desconfortável. Porque é isso que a Liberdade garante: espaço para todos. O humor é um espaço daqueles com quem concordamos e daqueles de quem discordamos; dos que nos fazem rir e dos que nos fazem corar de vergonha alheia; dos sensíveis e dos insensíveis; dos elevados e dos mais rasteiros. O humor tem que ser democrático, senão não existe. E na Democracia, já sabemos, cabem todos. É isso que a define.
Eu não gosto da música dos Anjos, mas defenderei sempre o direito que eles têm a fazer a música que entendem e o direito que, quem gosta, tem a ouvi-la. Também não gosto particularmente do humor da Joana Marques, mas espero que ela tenha sempre todo o espaço para o fazer – principalmente, quando há tanta gente que, ao contrário de mim, o aprecia. Do que eu gosto mesmo é da Liberdade, que dá a cada um o direito de se expressar livremente. E o que eu espero é que a Liberdade seja um fato que, mesmo quando desconfortável, serve a todos por igual. O humor pode ser à vontade do freguês, mas a Liberdade não.

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