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Opinião: Como a má perceção do território nos prejudica

27 de novembro de 2024 às 12 h26
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Portugal é um país repleto de contradições e incoerências, e uma das mais evidentes diz respeito ao território: Norte vs Sul, Litoral vs Interior, Nós vs Eles. Uma nação define-se por um conjunto de indivíduos que se identificam enquanto comunidade, partilhando uma língua, uma cultura e um território. Contudo, os portugueses, de forma geral, não olham para o território com “olhos de ver”. Este problema está, em grande parte, relacionado com a má comunicação sobre o território nacional. Dia após dia, somos expostos a mensagens imprecisas, que distorcem o nosso entendimento do espaço em que vivemos. Como o cidadão comum raramente tem a preocupação em aprofundar os assuntos, cria-se uma perceção errada que muito nos prejudica enquanto país e sociedade.

Um exemplo simples, mas significativo, desta falta de rigor geográfico surge nos boletins meteorológicos. Nestes programas, Portugal Continental é tipicamente dividido em três – Norte, Centro e Sul. No entanto, esta divisão não corresponde às áreas geográficas sob a alçada das Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDRs) nem reflete os subtipos climáticos de Portugal.

As CCDRs – Norte, Centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo, e Algarve – são serviços de administração direta do Estado responsáveis pela coordenação e execução de políticas regionais nos domínios do ambiente, do ordenamento do território e das cidades. Não seria lógico comunicar o território de acordo com a sua organização administrativa?

Nas informações meteorológicas, Aveiro, Viseu e Guarda pertencem ao Norte (Figura 1 ), enquanto Portalegre surge no Centro. Quanto aos subtipos climáticos – sendo o território a sul do Rio Tejo caraterizado por um clima temperado mediterrâneo, enquanto a norte se distinguem influências marítimas, continentais, ou de altitude – também não são evidenciados visualmente. Ainda mais grave é a prioridade dada à beleza do grafismo em detrimento da exatidão geográfica, com várias cidades a serem representadas em localizações absolutamente erradas: Aveiro é surge a norte da Ria e Viseu quase junto ao Rio Douro.

Outro caso paradigmático, é a designação “pouco feliz” das portagens da autoestrada A1. Coimbra é servida por três portagens, oficialmente designadas por Coimbra Norte, Coimbra Sul, e Condeixa. A primeira traduz corretamente a sua localização na zona norte do município, mas as outras duas geram imediatamente confusão.

A portagem de Coimbra Sul apoia-se numa via rápida transversal que dá um acesso mais direto ao centro da cidade do que propriamente à zona sul do município. Por outro lado, a portagem que realmente serve a zona sul é a designada como Condeixa. Localizada na fronteira entre os municípios de Coimbra e de Condeixa, recebeu apenas o nome deste último, apesar do tráfego se destinar essencialmente ao primeiro. Para além disso, a maioria do tráfego proveniente de Coimbra com destino a Sul – Leiria, Lisboa, etc. – acede à A1 pela portagem de Condeixa, não pela de Coimbra Sul. Assim, fica evidente que a portagem de Coimbra Sul deveria ser renomeada como Coimbra Centro e a de Condeixa como Coimbra Sul/Condeixa. Curiosamente, o término da autoestrada A13 em Ceira, que serve a zona leste de Coimbra, também é designado Coimbra Sul. E esta, hem? Neste caso, a incoerência poderia ser resolvida alterando o seu nome para Coimbra Ceira.

Muitos outos exemplos – porventura mais graves – poderiam ser citados. Estes dois breves casos ilustram uma tendência geral: a forma displicente como em inúmeras situações – na rádio, na TV, ou até mesmo no terreno – se comunica a geografia do nosso território. Isto produz consequências graves: afeta a perceção global dos portugueses sobre o seu próprio país. Se, enquanto sociedade, não promovemos uma visão rigorosa e coerente do nosso território, como poderemos valorizá-lo? E sem essa valorização, que futuro teremos enquanto nação?

Autoria de:

João Bigotte

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