Pensar a cidade e território

Como lidar com as trotinetes?

03 de setembro de 2026 às 09 h30

Há temas em que a perceção pública parece formar-se rapidamente, com posições extremas e vincadas. As trotinetes partilhadas são um deles. Uma petição pela proibição dos sistemas de partilha de trotinetes na cidade de Lisboa levou, quase de imediato, a uma “cópia” em Coimbra. A petição pretende essencialmente “pôr termo à exploração de sistemas de trotinetas e bicicletas partilhadas sem estações físicas de fixação (“docas”)”.

Em Coimbra, este tema é relevante e merece um debate informado. Em 2021, as trotinetes partilhadas representavam mais de 20 mil viagens mensais – um valor considerável. Desde essa altura, para além das flutuações entre meses de Inverno e de Verão, não terá mudado muito (embora ainda não se conheça com profundidade o impacto, positivo ou negativo, da recente entrada em funcionamento do metrobus). Naturalmente, não são isentas de problemas.

Perante uma proposta tão drástica – que levaria à eliminação total de uma solução de transporte que teve sucesso assinalável – vale a pena refletir e perguntar: esta petição visa debater a mobilidade urbana ou, simplesmente, procura um culpado “mais visível” para problemas muito mais profundos e complexos?
O principal argumento usado para propor a proibição das trotinetes partilhadas é a má utilização, que leva a acidentes e à ocupação indevida do espaço público. Não se deve desvalorizar uma pessoa atropelada, uma queda ou um peão que vê a sua movimentação dificultada – em particular se se tratar de invisuais, idosos, cadeiras de rodas ou carrinhos de bebé. Os problemas existem e devem ser resolvidos. Mas a discussão tem de ser devidamente enquadrada.

Nos últimos dias, em Albufeira, um automóvel furou barreiras, ignorou as autoridades, e atropelou 16 pessoas numa zona pedonal e, em Lisboa, um automóvel em fuga embateu em dois veículos estacionados, destruindo-os e incendiando-os por completo, tendo os três ocupantes sido salvos pela polícia que os retirou do automóvel. São casos extremos, mas, infelizmente, demasiado frequentes. Lembram-nos que a “má utilização” de um automóvel pode gerar consequências gravíssimas não só para os seus ocupantes, mas também para terceiros. Em Portugal, apenas nos primeiros seis meses de 2026, os acidentes rodoviários já provocaram 225 mortos e 1371 feridos graves – mais de uma morte por dia!

Por outro lado, em sete anos de registos no nosso país – de 2019 a 2025 – acidentes envolvendo trotinetes elétricas resultaram em 10 mortos (pouco mais de 1 por ano) e 88 feridos graves. Em Coimbra, felizmente, não morreu ninguém desta causa. Tipicamente, os acidentes de trotinetes envolvem apenas os seus utilizadores e resultam em traumatismos do crânio e dos braços. Note-se que muitas das mortes e vítimas graves registadas dizem respeito a utilizadores de trotinetes que foram atropelados por automóveis (e não a acidentes diretamente provocados pelas trotinetes). Para além disso, no que diz respeito ao estacionamento indevido em passeios, os automóveis infringem e prejudicam mais do que as trotinetes.

Os números não são diretamente comparáveis – e não se trata de dizer que um modo é melhor do que o outro, pois ambos têm vantagens e desvantagens, e adequam-se a tipos de viagens diferentes – mas a perspetiva entre um modo dominante e um novo permite colocar duas questões fundamentais:
1) Por que aceitamos um elevado grau de risco associado ao automóvel, incluindo aquele que é imposto a terceiros (alheios às situações que provocam os acidentes), enquanto se pretende exigir às trotinetes um padrão de “risco zero”?
2) Como é que, em sociedade, abordamos este tipo de questões, nos mais variados contextos?
Ano após ano, o excesso de velocidade e a condução sob o efeito de álcool causam graves acidentes rodoviários e inúmeras mortes. Vamos proibir os automóveis? E as bebidas alcoólicas: proibir ou moderar o seu consumo? E o que dizer do tabaco e das armas? Em Portugal, proibimos tudo o que tem inconvenientes ou procuramos entender e minimizar os problemas, regulando a sua utilização?

Todos sabemos as respostas certas a estas perguntas. Se o critério para proibir algo for a inexistência de comportamentos inadequados, acidentes ou conflitos, teremos de equacionar praticamente tudo o que fazemos diariamente.
Então, que sentido faz proibir os sistemas de partilha de trotinetes? Tentar transformar cada ocorrência numa prova de que são intrinsecamente maléficos e devem ser proibidos, é confundir o sintoma com a doença e acarreta uma certa dose de radicalismo. Os sistemas não são perfeitos, mas é possível minimizar os seus inconvenientes com melhor regulação, informação e fiscalização.

Talvez seja tempo de deixar de perguntar se somos “a favor” ou “contra” as trotinetes. Na verdade, esta discussão cruza-se com uma questão muito mais estrutural e importante: que cidade e que mobilidade pretendemos?
Se quisermos viver numa cidade vibrante, sustentável, resiliente e com grande qualidade de vida, então os sistemas de partilha de trotinetes fazem muito mais parte da solução do que do problema.

2 Comentários

  1. Hugo diz:

    Embora a conclusão não esteja necessariamente errada, o início deste artigo baseia-se na ideia, errada, de que a petição pede a proibição das trotinetes.

    Pelo contrário, a própria petição, como o artigo cita, pretende “pôr termo à exploração de sistemas de trotinetas e bicicletas partilhadas sem estações físicas de fixação (‘docas’)”. Ou seja, o que se pede não é a eliminação deste meio de transporte, mas sim a sua regulamentação. Mesmo a câmara já falou nessa direcção, precisamente para travar o crescente sentimento negativo para com estes sistemas.

    Dito isto, esta forma de mobilidade é indispensável como alternativa, mas tem de cumprir, como os restantes utilizadores, regras de partilha das vias públicas e de civismo.

  2. J diz:

    Reconhecendo a pertinência e justeza de muito do que aqui é dito, existem também alguns aspetos que correm o risco de induzir o leitor a percepções enviesadas.
    A questão do autor “1) Por que aceitamos um elevado grau de risco associado ao automóvel, incluindo aquele que é imposto a terceiros (alheios às situações que provocam os acidentes), enquanto se pretende exigir às trotinetes um padrão de “risco zero”?” pretende induzir o leitor a percecionar a existência de um paradoxo e a enfrentá-lo intelectualmente.
    Esta abordagem trouxe-me à memória um lamentável acidente ocorrido em dezembro de 2012 que vitimou um peão cego quando, bem próximo do IDPJ (R. Pedro Monteiro) se aproximou de um murete demasiado baixo para sustentar a sua queda ao tropeçar nele.
    As trotinetas, são estes muretes ambulantes que, embora ainda não tenham matado em Coimbra, já levaram pessoas cegas ao hospital, assim como, quem saberá, terão levado outras pessoas.
    Concordemos, pois, que trotinetas e automóvel são veículos sujeitos a más utilizações, colocando condutores e terceiros em risco. Mas, talvez nos devamos ficar por aí nessa comparação.
    E, sobretudo, que a praga de carros estacionados em cima dos passeios não legitime por um segundo que seja a praga de trotinetas junto a escadas, junto à linha do metro, na beira de um passeio, etc. Combatam-se ambas as pragas.
    É por tudo isto que discordo que ancoremos a análise deste tema em folhas de Excel
    E é também por tudo isso que nem percebo o porquê do questionamento desta petição. A meu ver, ela tem a virtude de ser equilibrada, nunca questionando a valia das trotinetas como instrumento promotor da mobilidade suave simplesmente, de forma disciplinada.
    Então, se queremos comparar, façamo-lo pela positiva. Aguardemos um contributo equiparável para resolver os abusos na forma como se utiliza o automóvel.
    E, já agora, bem sei que há que ter esperança na humanidade mas, a segurança das pessoas não pode esperar pelos efeitos da pedagogia.
    Coragem para quem ousa promover uma pequena mudança positiva sem se deixar enredar no muito que há por fazer.
    É que, “Grão a grão…”

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