Ainda a Alta Velocidade em Coimbra. P’ra quem é…
Como é sabido, houve duas propostas no Concurso de execução e concessão para a parte da linha entre Oiã e Taveiro, que inclui a passagem da Alta Velocidade ferroviária por Coimbra e a construção da nova estação de Coimbra B. É também sabido que houve dois concorrentes.
Já antes aqui escrevi sobre o efeito NIMB na avaliação e participação das populações na edificação de grandes infraestruturas públicas de beneficiação. NIMB é um acrónimo inglês que significa (Not In My Backyard) “não no meu quintal”, as suas causas e os seus efeitos estão devidamente estudados pelas ciências do planeamento.
A decisão do Júri do concurso está agora a decorrer, mas um dos consórcios concorrentes decidiu fazer uma sessão pública sobre a sua proposta, à qual tive oportunidade de assistir. Foi para mim muito evidente que a aposta publicitária se dirigiu maioritariamente aos cidadãos cujas propriedades irão ser afetadas. Alegadamente para evitar essas expropriações, a proposta descartava a execução de uma componente essencial do projeto da Infraestruturas de Portugal, IP, que é a duplicação da Linha do Norte entre Taveiro e Coimbra. Não irei aqui evidenciar que o preço-base definido pelo Estado já inclui uma parte substancial do orçamento dedicada a essas expropriações, não irei por aí.
Para além dos proprietários, notou-se um outro alvo publicitário a atingir, as sensibilidades ambientalistas, habitualmente muito ativas. Alegadamente, o consórcio afirmava que, ao contrário do que estava inicialmente previsto pela IP e aprovado em sede de Impacto Ambiental, a sua proposta não “tocava no Choupal” nem “no Flyover de Bencanta”, poupando assim muitas dezenas de milhões de euros. Ao próprio consórcio, direi eu.
Por fim, mostraram-nos a nova estação de Coimbra B, esse sim, um bom projeto de arquitetura que, ainda assim, também não cumpria o layout das linhas férreas pré-definido pela IP.
Se esta proposta for para a frente, como é que se processará a passagem da Alta Velocidade ferroviária por Coimbra? Que “passe de mágica” foi dado para que se consigam evitar todas essas condições, consideradas pelo consórcio excedentárias, e até eventualmente nefastas?
Pois bem, a “solução” é que a ligação a Coimbra B seja feita por um “Ramal em Y”. Parece simples e, como todas as coisas que parecem simples, está carregada de complicações.
O “Ramal em Y” será inteiramente feito nos Campos do Bolão. Os melhores solos agrícolas de Portugal, como alguém lhes chamou, ficarão assim transformados numa floresta de pilares que suportam viadutos ferroviários. Gostava de ouvir as sensibilidades ambientalistas pronunciarem-se sobre esta questão. Ou perdemos um cantinho de uma dúzia de metros quadrados da Mata Nacional, ou perdemos hectares e hectares de área agrícola sobrevoada por pesados viadutos. Que se lixe, não é no meu quintal…
Mas, para além do mais, a “solução do Ramal em Y” pressupõe que todas as composições de Alta Velocidade que entrem na nova estação de Coimbra B fiquem lá, ou seja, um comboio oriundo do Porto que pare em Coimbra, não pode seguir de imediato para Lisboa, e um comboio oriundo de Lisboa que pare em Coimbra, não pode seguir de imediato para o Porto. Portanto, ou as ligações têm como destino final Coimbra, ou teremos de perder cerca de dez minutos a inverter o sentido do comboio. Dez minutos, ou cinco minutos que sejam, é uma eternidade em atratividade comercial do percurso. Ou seja, Coimbra B passará a ser uma estação terminal, como o é Santa Apolónia, ou como o era a Estação Nova antigamente. Todos os comboios de Alta Velocidade terão de inverter o sentido para seguir viagem.Caso esta proposta vença o concurso, o que vai acontecer é que a estação de Coimbra B irá paulatinamente perder competitividade comercial perante os operadores de Alta Velocidade, quando muito, ficará com um ou dois comboios por dia em cada sentido. Para irmos para o Porto, ou para o Aeroporto Sá Carneiro, vamos na Linha do Norte até Aveiro apanhar o TGV. Se formos para Lisboa, iremos na Linha do Oeste até Leiria apanhar um outro TGV. Coimbra ficará fora da rede de Alta Velocidade. Na prática, é isso que acontecerá.
Para já não falar do investimento público que tem vindo a ser feito no terminal de contentores de Alfarelos e nas concomitantes possibilidades de incrementar o movimento portuário da Figueira. Todo esse investimento será infrutífero sem a duplicação da Linha do Norte entre Taveiro e Coimbra, um troço que já é dos mais sobrecarregados da rede ferroviária existente, a seguir a Lisboa e ao Porto.
Dito isto, resta-me desejar que todos os proprietários que possam estar sob a ameaça da expropriação sejam justamente ressarcidos e que todas as possibilidades de manter as respetivas propriedades intactas sejam pormenorizadamente estudadas. Quanto a mim, vou tentar manter os olhos bem protegidos da poeira.
