Davos 2026
Voltei de Davos com menos frases feitas e mais números a ecoar. Talvez seja esse o sinal dos tempos. Segundo o World Economic Forum, mais de 70% do crescimento económico esperado na próxima década estará ligado à adoção eficaz de tecnologias digitais e de inteligência artificial, não à sua invenção, mas à sua integração real na economia. Em Davos falou-se menos de promessas e mais de execução.
Os dados são claros: a produtividade nas economias avançadas cresce hoje a menos de metade do ritmo dos anos 1990; o investimento global em IA já ultrapassa os 300 mil milhões de dólares por ano; e, ainda assim, a maioria das empresas e administrações públicas continua presa a modelos operativos do século passado. A tensão é visível. O tom este ano foi diferente. Menos euforia tecnológica, mais prudência estratégica. Líderes políticos reconheceram que regulação tardia tem custos.
Executivos admitiram que escalar sem confiança destrói valor. Economistas lembraram que inovação sem território não cria prosperidade: cria dependência. O que mais me marcou não foi o palco, mas os bastidores. Conversas sobre como reter talento fora das capitais globais. Como transformar universidades em motores económicos locais. Como fazer com que cidades médias e regiões saibam jogar em redes globais sem perder identidade.
Davos já não é apenas sobre “quem lidera o mundo”, mas sobre quem consegue traduzir mudança em bem-estar concreto. Saí com uma convicção simples: o futuro não pertence apenas aos grandes centros, mas às economias locais que sabem ligar ambição global a execução próxima. Inovação não é escala por si só. É coerência, continuidade e coragem para fazer diferente onde se está. Talvez seja essa a verdadeira lição de Davos 2026: o mundo acelera, sim, mas quem vence é quem está disponível para executar.
