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O silêncio desprotegido

04 de setembro de 2026 às 09 h30

Erling Kagge é um explorador e escritor Norueguês, que fez um livro de nome “Silêncio na era do ruído”. Neste texto tenta revelar como o silêncio é uma riqueza, um luxo onde podemos descobrir-nos, onde podemos distanciar-nos. O silêncio não é uma ausência, porque se preenche dos sons inúmeros que não escutamos pela permanência do ruído.

Este livro conjuga-se muito bem com o “Elogio da Lentidão” que o Neurocientista italiano, Lamberto Maffei escreveu em 2014, descrevendo a disrupção que as aplicações, os telefones portáteis e a constância da multitarefa, estão a causar no cérebro humano. A saúde mental está em perigo devido ao advento abusivo do digital. A palavra como base da comunicação está em risco, pela transversalidade das mensagens, das redes sociais, da utilização dos dedos nos telemóveis. Para Lamberto Maffei a desconcentração, a distracção das máquinas portáteis, repercute-se na ausência do pensamento profundo, causa problemas sinápticos nos neurotransmissores, desenvolvendo ansiedade, frustração e patologia de stress. O sistema humano carece de tempo para se processar. Na realidade, acrescento eu, que os operadores constantes de telemóveis e aplicações acabam por incutir viciação sumária na aprendizagem. A falta de atenção fragmenta o raciocínio e deste modo não se processa coerentemente.

Os dois livros transportam-nos para a defesa da lentidão e do silêncio na era do ruído e da estimulação patológica.
Hoje há milhares de pessoas que não toleram o silêncio, não conseguem viver com a pausa. As salas de cinema acabaram com o intervalo. Com tudo isto reduz-se a comunicação, os tempos de afecto, de intimidade tranquila. A velocidade que nos rodeia em tudo, a exigência de rapidez, contraría a natureza do corpo, a necessidade da razão, da lógica, da pesquisa, e como é obvio, da pergunta. A pergunta é um instrumento da comunicação, uma das múltiplas estruturas que nos distingue como pessoas. A palavra, e a linguagem, são a razão de toda a evolução humana e estão em perigo.

As dúvidas destes dois autores entrecruzam-se na preocupação do valor humano, no desejo de um tempo, uma ausência que nos preenche connosco no silêncio, sem pressa, sem telemóvel, sem aplicações, sem redes sociais. Eu, a beber um galão, sossegado, comigo próprio, sem ligar um écran, sem ouvir televisão, sem colocar música. O silêncio é uma cumplicidade connosco.

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