A guerra civil
Um carro matou mais uma pessoa em Coimbra. A cidade não se afasta do resto do país.
Em Portugal, em 2025, foram 48 pessoas mortas atropeladas. Aumentou o número de atopelamentos, tem aumentado todos os anos desde 2020. Uma guerra civil que mata anualmente uma pessoa por semana. E que deixa um rasto de feridos graves, estropiados.
Somos o país da Europa campeão dos atropelamentos.
Porque encolhemos os ombros?! Houvesse um grupo terrorista a provocar um décimo destas fatalidades e teríamos um clamor público. Ministros chamados à Assembleia da República. Inquéritos parlamentares. Directos televisivos à porta dos hospitais e à beiras das passadeiras, perguntando aos transeuntes o que sentiam. Debates. Comentadores, etc, etc
Mas nada, não se passa nada. Há um encolher dos ombros. Há dois anos morria uma senhora debaixo de um camião na Avenida Fernão Magalhães. Escrevi sobre isso em Março de 2024. Tinha havido caso semelhante no ano anterior, no mesmo local, com a mesma tipologia de veículo. A resposta da Câmara foi que os semáforos estavam a funcionar.
Se tudo está a funcionar porque continua a morrer gente?!
Se calhar é o próprio desenho de mobilidade que não está a funcionar para a protecção do peão. É que «funcionar» não é só o semáforo acender e apagar, não é só estar lá a placa ou a passadeira. Funcionar é cumprir o objectivo, no caso dar segurança ao peão.
Será aceitável ter avenidas dentro da cidade com tipologia de auto-estradas?! Antes da sinalização há formas que levam à acalmia do tráfego, medidas físicas, estrangulamentos das vias, menos espaço. Algo que nos faça moderar a velocidade sem sequer pensarmos nisso.
Será aceitável não conseguimos ir a pé do sítio A ao sítio B em segurança no meio da cidade? Repetem-se as situações em que os peões se vêem, sem qualquer indicação, despejados no meio do trânsito à mercê da boa-vontade dos automobilistas.
Será aceitável que o traçado do metrobus seja ainda mais hostil ao peão, com atravessamentos mais dificultados e a obrigar a percursos muito maiores?
Chegámos a este paradoxo: Pergunto a um amigo porque leva as filhas de carro à escola se é uma caminhada de menos de 15 minutos. Responde-me que tem medo que sejam atropeladas.
Precisamos do carro para não sermos atropelados…

