Que mundo é este?
Vivemos dias distópicos. Uma realidade alternativa onde o absurdo se banalizou, a mentira disputa o lugar dos factos e a democracia parece ter perdido o manual de instruções.
Donald Trump governa os Estados Unidos como se a Casa Branca fosse uma extensão dos seus negócios familiares. Confunde poder político com interesses privados, hostiliza a imprensa e alimenta verdades alternativas através das plataformas digitais. A realidade tornou-se um incómodo que se contorna com propaganda, intimidação e convenientes doses de ficção.
Entretanto, a inteligência artificial avança a uma velocidade que poucos conseguem compreender, muito menos controlar. O poder concentra-se nas mãos de um punhado de empresas, enquanto a regulação chega tarde e a responsabilidade se dilui. Estamos a entregar às máquinas parcelas crescentes do nosso futuro sem saber quem, afinal, terá o controlo sobre o quê.
A União Europeia, prisioneira das suas hesitações, parece incapaz de responder a uma nova ordem internacional. Putin continua a jogar à roleta russa com a paz mundial, enquanto a Ucrânia resiste, sem que se vislumbre o fim da guerra. No Brasil, a corrupção nos Tribunais Superiores e a ameaça de regresso da extrema-direita expõem a fragilidade de sistemas que julgávamos mais consolidados.
E, enquanto, por todo o lado, famílias e empresas sufocam com a inflação e os juros elevados, no estreito de Ormuz joga-se uma espécie de batalha naval, com consequências que ultrapassam largamente os seus protagonistas. Uns poucos movimentam peças e milhões pagam a fatura.
E, a meu ver, o mais inquietante não é apenas a sucessão de crises. É a normalização do inaceitável. A erosão das instituições, o desprezo pela verdade, a impunidade dos poderosos e a incapacidade coletiva de impor limites.
Que mundo é este? Um mundo em que o progresso tecnológico convive com a regressão política, a abundância de informação com a manipulação e a promessa de prosperidade com a insegurança permanente.
E o mais assustador é termos deixado de nos surpreender. E de acreditar que ainda podemos mudar o rumo dos acontecimentos.