O calor passa factura
Em Portugal, quando chega Setembro e ainda está calor, ninguém estranha muito. Continuamos a falar do calor como quem fala de uma característica do país. Procura-se sombra, água fresca e persianas fechadas.
Este ano, na Bélgica, o calor começa a ser contabilizado de outra maneira. O CERAC (Climate and Environment Risk Assessment Center) – centro belga que avalia os riscos climáticos e ambientais do país – acaba de publicar uma análise sobre o impacto económico deste verão. E o resultado é pouco confortável: as ondas de calor de 2026 poderão custar à economia belga cerca de 6 mil milhões de euros, quase 1% do PIB.
Não é o preço dos gelados, dos ventiladores ou da electricidade dos aparelhos de ar condicionado. É, sobretudo, o preço de trabalhar com demasiado calor. Quando a temperatura sobe, a produtividade desce. O corpo abranda, o esforço físico torna-se mais difícil e o número de horas efectivamente trabalhadas pode diminuir. O impacto é particularmente forte em sectores como a construção, a agricultura e a indústria, onde não é possível simplesmente fechar o computador e trabalhar a partir de casa.
O verão de 2026 foi marcado por vários episódios de calor na Bélgica e por um período particularmente seco. O CERAC estima mesmo que este possa ter sido o verão meteorológico mais quente desde o início dos registos, em 1833.
É uma maneira curiosa de olhar para o calor. Na Bélgica começa-se a vê-lo como uma despesa. A ironia é que o calor era aquela coisa que dantes aparecia durante alguns dias de Agosto e que se resolvia abrindo uma janela à noite. Só que abrir a janela já não chega sempre. Durante muito tempo, a pergunta na Bélgica foi: como vamos aquecer as nossas casas? Talvez a pergunta do futuro seja outra: como vamos conseguir arrefecê-las?
