E se o trabalho físico se tornasse opcional?
A evolução da inteligência artificial continua a surpreender-nos a cada dia que passa. Longe de ser uma promessa para o futuro, é já parte do nosso quotidiano. Embora com potenciais riscos como mostra o recente relato de incidentes nos laboratórios da OpenAI (ChatGPT) e da Anthropic (Claude), em que agentes de IA puderam contornar barreiras de segurança e causar impacto direto na infraestrutura do mundo real. Um exemplo de como os riscos de segurança são reais e críticos quando passamos as ações para o mundo físico.
Estes riscos, embora possam parecer exagerados, parecem agora mais reais e constituem uma rutura com o passado. Significa passar dos ecrãs para o mundo físico. E aqui, importa falar no próximo capítulo que se começa a desenhar – a robótica humanoide.
Os humanoides são robôs concebidos com movimentos e capacidades de interação semelhantes aos seres humanos. Estão equipados com sensores, atuadores e IA e podem compreender instruções, reconhecer ambientes e executar tarefas físicas em espaços pensados para pessoas, quer seja em casa, fábricas, hospitais, serviços públicos.
Em entrevistas e intervenções recentes, Elon Musk sublinhava o potencial de rapidez desta transformação. Na sua visão, a transição para uma economia assente nesta robótica avançada não é uma hipótese muito distante. E a promessa é sedutora: libertar-nos de trabalhos mais duros, repetitivos ou pouco valorizados, permitindo-nos dedicar mais tempo à criatividade, à estratégia, às relações humanas. Musk resume esta mudança de paradigma com uma visão totalmente disruptiva, tendo chegado a afirmar, por mais do que uma vez, que, no futuro, o trabalho físico será opcional. “Podes trabalhar se quiseres, mas não serás obrigado. Estas máquinas inteligentes irão desempenhar quase todas as funções produtivas” (!). E, nas projeções extremamente ambiciosas que tem partilhado, estima que até 2040 existam pelo menos 1 milhão de robôs humanoides em funcionamento no mundo. Sistemas como o Optimus, robô humanoide autónomo e bípede criado pela Tesla para realizar tarefas repetitivas, perigosas ou monótonas no lugar dos humanos, poderão tornar-se um dos maiores produtos alguma vez fabricados pela humanidade. Musk chega a afirmar que a população de robôs humanoides acabará por ultrapassar mesmo a própria população humana, com uma proporção de um por pessoa, ou seja, cada um de nós poderá ter, pelo menos, um robô para uso pessoal ou industrial.
O impacto económico poderá ser muito grande. Para o fundador da Tesla, “a economia é a produtividade por pessoa multiplicada pelo número de pessoas. Mas, se não houver um limite para o número de ‘pessoas’ sob a forma de robôs humanoides, a economia torna-se praticamente ilimitada.” Tudo isto levantaria imensas questões éticas e sociais – como gerir uma capacidade produtiva quase infinita, como governar uma sociedade onde o trabalho físico passasse a ser opcional?
Estas projeções parecem excessivas, mas têm o mérito de nos obrigar a pensar. A produtividade deixaria de depender apenas do número de pessoas disponíveis para trabalhar e passaria a integrar uma nova força de trabalho escalável, sem fadiga. Em sociedades envelhecidas como a europeia, onde a escassez de mão de obra já é uma preocupação real, esta tecnologia poderá tornar-se uma necessidade.“Todos continuarão a trabalhar, só que num nível diferente de produtividade”, contrapunha, por outro lado, o CEO da Nvidia, uma das empresas mais valiosas do mundo. Vamos aceitar esta premissa nas próximas décadas, de longe mais razoável. Ao que tudo indica e tal como já estamos habituados, tudo chegará mais cedo do que imaginamos. Mas o trabalho, esse, não deverá desaparecer, mas apenas transformar-se.
