A incerteza (mais que) instalada
Início de ano letivo e Coimbra preparou-se para receber 5890 estudantes colocados no Ensino Superior, em 114 cursos distintos. Na verdade, a cidade recebe muito mais do que este número de estudantes, o qual corresponde apenas aos resultados das Licenciaturas (110 cursos) e Mestrado integrado (4), colocados no âmbito do contingente geral do Concurso Nacional de Acesso ao Ensino Superior. Coimbra atrai, ainda, novos estudantes para outros cursos/graus de ensino (CETsP, Mestrado, Pós-Graduação e Doutoramento), em Mobilidade Erasmus e para Instituições de Ensino Privadas. Em 2025, foram apenas colocados 4891.Não houve uma melhoria significativa entre 2025 e 2026, já que no ano passado muitos estudantes não conseguiram ter sucesso nos 2 exames obrigatórios e o número de colocados foi severamente afetado por essa regra. Em 2024, foram colocados em Coimbra, nessa fase e no concurso mencionado, 5635 novos estudantes, em 109 cursos, e esse é o número que devemos conservar para comparações. Portanto, 2025 é uma “anomalia” e, comparando o comparável, melhorámos os resultados face a 2024.
Coimbra atrai estudantes. É uma marca. E, este ano, Coimbra é uma marca melhorada no que respeita a mobilidade e a residências. A abertura da linha de Metro Bus até às estações de metro de “Coimbra-B” e “República”, que se junta à ligação a Serpins, permite que alguns jovens possam optar por continuar a viver nas suas casas de família e deslocar-se todos os dias para Coimbra. Essa opção era inviável antes. Os estudantes têm transportes gratuitos dentro da cidade e passes a preços reduzidos para diversos comboios, o que é relevante para as opções de mobilidade. Há agora mais residências Universitárias em Coimbra (mesmo excluindo as detidas por privados): a nova de Bencanta (da Universidade Politécnica de Coimbra) e as da Universidade de Coimbra, na rua Luís de Camões (antigo edifício do ISCAC), e as renovações – como a da Rua da Alegria, inaugurada por um dos seus anteriores residentes, o Ministro da Educação, Fernando Alexandre.
A cidade enche-se de sonhos e expectativas, neste deslumbramento inicial. Estará o Ensino Superior, que estes novos alunos procuram, à altura de corresponder? O título deste artigo inclui “incerteza”. Os novos estudantes vão ser os primeiros de uma era em que as potencialidades da Inteligência Artificial começam a assustar até os seus criadores e fiéis defensores. Se, mais recentemente, nos forcávamos em trabalhar em projetos, em desafios com empresas, em “avaliar o processo e não o resultado”, na promoção do espírito crítico e da criatividade, em resolução de problemas reais ou debates, antevendo que a maioria iria trabalhar, em algum momento da sua vida, em profissões que ainda não estavam “inventadas”, agora é quase certo que, quando terminarem a licenciatura ou o Mestrado, podem já ir trabalhar em funções que não conseguimos antecipar, mesmo a 3 ou 5 anos.
A incerteza é real, palpável e ensurdecedora e já há alguns diplomados a senti-la. As empresas já contratam os juniores com novas regras, não se baseando apenas em entrevistas. Preferem criar programas de estágio (6 ou 9 meses ou mesmo um ano), em que o acesso é muito competitivo, implica a presença em diversas fases e a assumir compromissos variados, experienciar diversas funções e departamentos e, no final do estágio, são apenas selecionados os que correspondem às expetativas da empresa. Apesar destes estágios serem pagos, são uma boa opção para a maioria das empresas.
A avaliação durante o período de estágio é longa e permite avaliar muitas competências que não seriam analisáveis durante entrevistas pontuais. Possibilita absorver a cultura da empresa e perceber quem com ela mais se identifica. No final, os estagiários que não irão continuar não se sentem defraudados com o processo porque tiveram uma experiência que podem adicionar ao CV e receberam pelo trabalho desenvolvido. A exposição das competências dos candidatos é agora muito maior. Não importa apenas ter um CV, LinkedIn, cursos e bons resultados: “Consistência” é fundamental. Essa é a palavra com que inicio as minhas aulas em cada novo semestre. E com a IA, consistência continua a ser importante. A incerteza está instalada e cada um tem de lidar com ela.
