A última sessãoOpinião

Campo de batalha

15 de setembro de 2026 às 19 h00

Oliver Stone faz 80 anos a 15 de setembro de 2026. O realizador estadunidense, conhecido pelo criticismo ao próprio país através de filmes que atravessam géneros, fez uma incursão ao cinema desportivo em 1999, com “Um Domingo Qualquer“.

Quem já ouviu falar de cinema já ouviu falar de Oliver Stone; não só é um nome sonante, como também alcança a grandeza que a junção das duas palavras impõe.

Quem já passeou pela obra do cineasta já atravessou os delírios do Vietname (Platoon); já acreditou em teorias da conspiração sobre as miudezas da podridão política dos Estados Unidos da América (JFK); já tapou a câmara do seu portátil pessoal com uma tirinha de fita-cola (Snowden): Oliver Stone tem o poder de nos fazer acreditar que tudo, até a hipótese de alguém estar a espiar continuamente o cúmulo da nossa privacidade, é possível. Os seus filmes são autênticos campos de batalha que, apesar de comunicarem consigo mesmos na tentativa de mediação de conflitos, no final nem sempre se resolvem.

Um Domingo Qualquer não foge à aplicação da brilhantina com que o menos americano dos realizadores estadunidenses reveste a prancha do seu trabalho. Apesar de esta obra sobre futebol americano não rondar as temáticas do costume, contempla a América no seu esplendor: tal como a quem caminha por aquele país, faz-nos sentir eletrizados através de todos os seus elementos.

 

“Este filme tem hip-hop e música eletrónica, tem metal e rock; as câmaras que o filmaram movem-se ao sabor da vibração dos intervenientes”

 

Os cortes surgem antecipados ao seguinte tal qual os jogadores roubam a bola ao adversário; são confidenciados segredos que nunca chegamos a ouvir; quando as coisas não correm bem, é chamado um padre ao balneário para garantir que, depois da noite escura da derrota, a alegria sempre chega com a luz da manhã. Quem gosta de caras conhecidas vai ficar de barriga cheia: o luxo do elenco (Al Pacino, Jamie Foxx, Cameron Diaz, Dennis Quaid, James Woods, Matthew Modine, Aaron Eckhart, e até o veterano Charlton Heston) confere-nos a certeza de que toda a gente quer trabalhar com Oliver Stone.

Existe uma boa probabilidade de quem estiver a ler este texto não perceber grande coisa sobre futebol americano (eu incluído), desde as regras do jogo às táticas com que se o joga. Porém, não é preciso saber nada sobre este desporto para se gostar do filme, até porque os filmes sobre desporto são tão melhores quanto menos requerem que o compreendamos, uma vez que a narrativa apenas o usa como pano de fundo para poder resultar por si. Apenas precisamos de entender o peso de uma desautorização ao treinador, esse regulador de testosterona, da ameaça de uma não renovação de contrato, ou de uma substituição forçada por uma lesão.

 

“Confesso-me um apreciador tendente para um cinema mais pausado, mas quando falamos de cinema de desporto, a representar um nível tão alto de intensidade, faz sentido o corte surgir quase ao ritmo da nossa respiração, para aumentar ora a tensão no espectador, ora a sensação de que a derrota está perto”

 

É claro que Oliver Stone abusa da teoria da relatividade nos segundos finais de Um Domingo Qualquer e, para fazer aguçar o suspense e fazer valer o preço do bilhete, faz com que aqueles instantes antecedentes à vitória pareçam décadas. É claro que os bons ganham sempre no fim. E é claro que Stone está lá, no topo da bancada do estádio, dentro do próprio filme, a comentar as jogadas que ele próprio engendra.

– E porque raio é que tamanho ser mitológico desceu do olimpo da sétima arte até ao campo da batalha para o fazer? – Perguntais vós.

– Ora, porque pode. – Respondo eu.

 

Deixe o seu Comentário

O seu email não vai ser publicado. Os requisitos obrigatórios estão identificados com (*).


Últimas

A última sessão

Opinião