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Rupnik ou não Rupnik

15 de setembro de 2026 às 09 h30

A próxima visita do Papa Leão XIV a França, incluindo a passagem por Lourdes, representa já, ainda antes de se iniciar, um importante marco no debate sobre o cuidado devido para com as vítimas de abusos. A questão centra-se, neste caso, na exibição dos mosaicos que, desde 2008, cobrem a fachada da Basílica do célebre santuário. Os mosaicos são obra do atelier do mosaicista esloveno Mark Rupnik. Este padre jesuíta era então uma autêntica “super-estrela” no meio artístico: o seu atelier em Roma executou, entre muitas outras obras, a decoração da capela Redemptoris Mater do Palácio Apostólico Vaticano ou o altar-mor da Basílica da Santíssima Trindade em Fátima.

Em 2022 tornam-se públicas acusações de mulheres (sobretudo freiras ligadas ao centro fundado por Rupnik na Eslovénia ou ao seu atelier) que relatam um autêntico inferno de abusos sexuais e psicológicos sofridos às mãos do artista. Este foi sujeito a várias sanções jurídicas, embora haja ainda vários processos em curso. Contudo, para além das óbvias e necessárias consequências jurídicas surge também a discussão paralela sobre a manutenção da exposição da sua obra. Esta discussão assenta, antes de mais, no respeito pela dignidade das vítimas.

O bispo de Lourdes e o respetivo santuário têm assumido desde então um notável protagonismo. O próprio bispo, num extraordinário comunicado de 2024, relata a formação em 2023 de uma comissão incluindo não só vítimas de abusos sexuais (francesas e internacionais), mas também peritos em arte religiosa, direito, prevenção e luta contra abusos, bem como capelães de Lourdes. “Hoje, percebo que as opiniões estão muito divididas e frequentemente disjuntas. Devemos deixar ficar os mosaicos onde estão? Devemos removê-los ou mostrá-los em outro lugar? Não existe consenso sobre proposta alguma.

As posições assumidas são fortes e apaixonadas.” Ao nível do Vaticano, estas diferentes correntes colidiram também: logo em junho de 2024 o “ministro” das comunicações do Vaticano, Paolo Ruffini, defendeu que a retirada da exposição pública de obras de arte não era “uma resposta cristã”. Em resposta, o cardeal O’Malley, então principal responsável pela Comissão de Proteção de Menores, enviou uma carta a todos os responsáveis da Cúria Romana, defendendo que “devemos evitar a mensagem de que a Santa Sé é indiferente ao sofrimento psicológico de que tantos padecem”.

Em Lourdes, sem que fosse possível alcançar consenso (com o próprio bispo a favor da remoção dos mosaicos) foi decidido em julho de 2024, como primeira medida, deixar de iluminar os mosaicos durante as procissões noturnas. Uma nova etapa teve lugar em março de 2025, durante o ano jubilar, tendo então sido cobertos os mosaicos nas portas de entrada da basílica. Finalmente, no decurso da preparação para a próxima visita papal, o bispo anunciou em agosto passado que todos os mosaicos serão cobertos até à visita e assim permanecerão depois.

A grande novidade das declarações consiste na tomada de posição do próprio Papa relativamente ao assunto: o bispo anunciou que não só o Papa apoia a forma como o processo tem sido conduzido em Lourdes, como informou ter dado ordem, logo no início do pontificado, para que o departamento de comunicações vaticano deixasse de utilizar os mosaicos de Rupnik para ilustrar publicações. Roma locuta, causa finita?

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