Como lidar com as trotinetes?
Há temas em que a perceção pública parece formar-se rapidamente, com posições extremas e vincadas. As trotinetes partilhadas são um deles. Uma petição pela proibição dos sistemas de partilha de trotinetes na cidade de Lisboa levou, quase de imediato, a uma “cópia” em Coimbra. A petição pretende essencialmente “pôr termo à exploração de sistemas de trotinetas e bicicletas partilhadas sem estações físicas de fixação (“docas”)”.
Em Coimbra, este tema é relevante e merece um debate informado. Em 2021, as trotinetes partilhadas representavam mais de 20 mil viagens mensais – um valor considerável. Desde essa altura, para além das flutuações entre meses de Inverno e de Verão, não terá mudado muito (embora ainda não se conheça com profundidade o impacto, positivo ou negativo, da recente entrada em funcionamento do metrobus). Naturalmente, não são isentas de problemas.
Perante uma proposta tão drástica – que levaria à eliminação total de uma solução de transporte que teve sucesso assinalável – vale a pena refletir e perguntar: esta petição visa debater a mobilidade urbana ou, simplesmente, procura um culpado “mais visível” para problemas muito mais profundos e complexos?
O principal argumento usado para propor a proibição das trotinetes partilhadas é a má utilização, que leva a acidentes e à ocupação indevida do espaço público. Não se deve desvalorizar uma pessoa atropelada, uma queda ou um peão que vê a sua movimentação dificultada – em particular se se tratar de invisuais, idosos, cadeiras de rodas ou carrinhos de bebé. Os problemas existem e devem ser resolvidos. Mas a discussão tem de ser devidamente enquadrada.
Nos últimos dias, em Albufeira, um automóvel furou barreiras, ignorou as autoridades, e atropelou 16 pessoas numa zona pedonal e, em Lisboa, um automóvel em fuga embateu em dois veículos estacionados, destruindo-os e incendiando-os por completo, tendo os três ocupantes sido salvos pela polícia que os retirou do automóvel. São casos extremos, mas, infelizmente, demasiado frequentes. Lembram-nos que a “má utilização” de um automóvel pode gerar consequências gravíssimas não só para os seus ocupantes, mas também para terceiros. Em Portugal, apenas nos primeiros seis meses de 2026, os acidentes rodoviários já provocaram 225 mortos e 1371 feridos graves – mais de uma morte por dia!
Por outro lado, em sete anos de registos no nosso país – de 2019 a 2025 – acidentes envolvendo trotinetes elétricas resultaram em 10 mortos (pouco mais de 1 por ano) e 88 feridos graves. Em Coimbra, felizmente, não morreu ninguém desta causa. Tipicamente, os acidentes de trotinetes envolvem apenas os seus utilizadores e resultam em traumatismos do crânio e dos braços. Note-se que muitas das mortes e vítimas graves registadas dizem respeito a utilizadores de trotinetes que foram atropelados por automóveis (e não a acidentes diretamente provocados pelas trotinetes). Para além disso, no que diz respeito ao estacionamento indevido em passeios, os automóveis infringem e prejudicam mais do que as trotinetes.
Os números não são diretamente comparáveis – e não se trata de dizer que um modo é melhor do que o outro, pois ambos têm vantagens e desvantagens, e adequam-se a tipos de viagens diferentes – mas a perspetiva entre um modo dominante e um novo permite colocar duas questões fundamentais:
1) Por que aceitamos um elevado grau de risco associado ao automóvel, incluindo aquele que é imposto a terceiros (alheios às situações que provocam os acidentes), enquanto se pretende exigir às trotinetes um padrão de “risco zero”?
2) Como é que, em sociedade, abordamos este tipo de questões, nos mais variados contextos?
Ano após ano, o excesso de velocidade e a condução sob o efeito de álcool causam graves acidentes rodoviários e inúmeras mortes. Vamos proibir os automóveis? E as bebidas alcoólicas: proibir ou moderar o seu consumo? E o que dizer do tabaco e das armas? Em Portugal, proibimos tudo o que tem inconvenientes ou procuramos entender e minimizar os problemas, regulando a sua utilização?
Todos sabemos as respostas certas a estas perguntas. Se o critério para proibir algo for a inexistência de comportamentos inadequados, acidentes ou conflitos, teremos de equacionar praticamente tudo o que fazemos diariamente.
Então, que sentido faz proibir os sistemas de partilha de trotinetes? Tentar transformar cada ocorrência numa prova de que são intrinsecamente maléficos e devem ser proibidos, é confundir o sintoma com a doença e acarreta uma certa dose de radicalismo. Os sistemas não são perfeitos, mas é possível minimizar os seus inconvenientes com melhor regulação, informação e fiscalização.
Talvez seja tempo de deixar de perguntar se somos “a favor” ou “contra” as trotinetes. Na verdade, esta discussão cruza-se com uma questão muito mais estrutural e importante: que cidade e que mobilidade pretendemos?
Se quisermos viver numa cidade vibrante, sustentável, resiliente e com grande qualidade de vida, então os sistemas de partilha de trotinetes fazem muito mais parte da solução do que do problema.
