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Linhas improvisadas

28 de julho de 2026 às 19 h00

A Primeira Guerra Mundial começou a 28 de julho de 1914. O clássico “Horizontes de Glória”, de Stanley Kubrick, é um dos principais filmes a explorar o conflito.

O coronel caminha hirto pela trincheira fora. Segue ladeado pelos seus bravos porém imóveis soldados, exemplificando como devem fazer. Explosivos, um dos assassinos mais temidos por todos quantos estão presentes, rebentam ao acaso e de repente sobre a frente de ataque, também conhecida como a terra de ninguém. A cada estrondo os soldados encolhem os ombros, num gesto que preferiam controlar. Mas o medo de ser aniquilado comanda os músculos desobedientes. Apenas o coronel segue sem medo, imune aos sons aterrorizadores, a face dele como a de uma estátua esculpida a fúria e polida a coragem. Brilhando como um sol que guia e tenta alimentar, o sentimento que carrega advém da necessidade de os moralizar.

Estes jovens obrigados a ser homens têm ainda mais medo da dor do que da morte; por isso se encolhem. Mas, quando chega a hora de avançar para a possibilidade de passar para o outro lado, nada temem: assim podem cruzar-se com a sorte de serem apanhados por um par de balas de metralhadora que lhes vai poupar, em matéria de poucos segundos, o suplício do que viria aí depois.

 

 

 

Dos seus olhos, cercados por pedaços da terra para onde desconfiam que irão em breve, escorre a bravura de quem aceitou que lhes fosse privado o amanhã. A falta de esperança no que se segue, essa desconfiança de que o conflito será eterno porque a ganância humana também o é, retira-lhes a vontade de continuar vivo. Mas a estrela cardeal continua o seu caminho, e como uma lanterna na escuridão atrai os homens sedentos de uma luz que os encaminhe.

Já a correrem para o objetivo, uma colina estratégica que terão de aguentar até ao final do dia, o apito que o coronel bufa serve de barómetro para a coragem que aqueles homens terão de manter; enquanto o ouvirem, tudo está bem.

Entretanto as altas patentes, de binóculos apontados para a carnificina, trocam filosofias atrás das secretárias que temem abandonar. Ao longe detetam que a próxima onda de soldados se recusa a avançar. Tamanhos covardes serão julgados mais tarde por quem de direito. O fogo intenso e as explosões impedem-nos de seguir o apito que os ordena para a frente. Ou então apenas pretendem não ouvir o barulho que lhes dita gritando: isto é o fim.

Um dos 8.000 homens não chegou a sair do lugar inicial. Jaz, de olhos voltados para o céu e as sobrancelhas entornadas sobre as côdeas da face que ainda carrega a última expressão esboçada, contra os sacos que preenchem, sem sucesso, as trincheiras, a linha improvisada onde foi cair. Um rio de sangue escorre-lhe pela testa, mas ninguém tem o tempo quanto mais a decência para o limpar. Na aflição a dignidade é sempre negada. O buraco de onde sai o líquido que ainda há pouco lhe garantia a vida é agora o sinal da falta dela. Para o morto aquilo era tudo, para os outros não é nada. A sua mãe, porque não houve tempo para mulheres, tem orgulho na coragem que o filho carregou, mas tinha preferido não ter.

 

“Ninguém sabe o que lhe tirou a vida; talvez um tiro redondo, certeiro, no meio de tantos desperdiçados, o tenha livrado dali. O desperdício é, afinal, sempre relativo”

 

Ninguém sabe que vida lhe foi tirada: podia ter sido a de um médico, a de um professor, a de um pintor. O corpo permanecerá ali por algumas horas, até ser descartado para onde não estorve. No crachá preso ao seu peito pode ler-se o seu nome, mas ninguém sabe mesmo quem poderia ter sido.

 

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