Entre recordes e limites: o turismo transforma Portugal? (parte I)
Portugal vive hoje um crescimento turístico que parecia impensável há apenas uma década: em 2016 recebíamos 18 milhões de visitantes, e em 2025 o número de chegadas de não residentes atingiu 29,9 milhões. Segundo o INE, três em cada quatro turistas estrangeiros que nos visitaram no último ano vieram da Europa, com destaque para Espanha (24%), Reino Unido (12%) e França (11%), contribuindo significativamente para 82 milhões de dormidas registadas na hotelaria, no alojamento local e no turismo rural. Apesar de um ligeiro abrandamento do número de turistas face a 2024, o país conseguiu também gerar mais valor, alcançando um máximo histórico de 29,4 mil milhões de euros de receitas, muito acima do aumento das despesas (7,2 mil milhões de euros), o que resultou num efeito largamente positivo das Viagens e Turismo para a Balança de Pagamentos portuguesa em 2025.
Estes resultados são particularmente robustos e consolidaram‑se sobretudo no período pós‑pandemia, refletindo a crescente competitividade do país, e permitiram colocar Portugal no top 5 da União Europeia em receitas de turismo internacional. O ano de 2026 começou no mesmo ritmo: entre janeiro e maio, 12 milhões de visitantes impulsionaram 10,3 mil milhões de euros de receitas, num contexto em que fenómenos climáticos extremos pressionaram infraestruturas, serviços e custos operacionais nas regiões mais atingidas. Fica assim demonstrado que o turismo é, sem margem para quaisquer dúvidas, um dos grandes motores da economia portuguesa!
Representa cerca de 20% das exportações nacionais e mais de 15% do Produto Interno Bruto (PIB), pois cada refeição, cada estadia e cada experiência “consumida” por quem nos visita introduz capital externo na economia e gera um efeito multiplicador que dinamiza o comércio e os fornecedores locais, assim como a oferta cultural. Ao mesmo tempo, sustenta 400 a 450 mil empregos diretos — perto de 10% do total nacional — ultrapassando um milhão quando se incluem todas as atividades que lhe estão associadas (que se estimam em cinco dezenas). É, por isso, uma verdadeira almofada social, sobretudo fora dos grandes centros urbanos, onde contribui para fixar população e reforçar a dinâmica económica regional.
A forte atratividade deste “cantinho à beira‑mar plantado” para o público internacional não é, contudo, obra do acaso. O mais recente Barómetro do Turismo mostra que Portugal combina clima, gastronomia e vinhos, património, hospitalidade e uma relação qualidade‑preço, que tradicionalmente nos distinguem de destinos concorrentes, com fatores cada vez mais determinantes num contexto internacional marcado por profunda incerteza. Segurança, estabilidade política e investimento contínuo na qualificação da oferta tornam o país mais acessível, sustentável e capaz de proporcionar experiências de maior qualidade aos visitantes. E agora que entramos no pico do verão — quando a capacidade dos territórios é verdadeiramente testada até ao limite — impõe‑se uma questão essencial: como aproveitar o crescimento exponencial do turismo sem comprometer a qualidade de vida de quem cá vive? Este será o grande desafio dos próximos anos, e que vale a pena analisar no próximo artigo.

