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Damos crédito ao consumo?

28 de julho de 2026 às 09 h30

Os números da economia portuguesa continuam, à superfície, a transmitir confiança. O emprego mantém-se resiliente, a atividade económica resiste a um contexto internacional complexo e as famílias continuam a demonstrar capacidade para assumir investimentos de longo prazo, em particular na aquisição de habitação. Mas, como tantas vezes acontece, os indicadores positivos também merecem uma leitura mais profunda.

Os dados mais recentes do Banco de Portugal revelam um crescimento muito significativo do crédito à habitação. O número de contratos aumentou, o montante total de crédito atingiu valores recorde e o valor médio dos novos empréstimos continua a subir. Nunca tantas famílias estiveram comprometidas com créditos tão elevados e por períodos tão longos.

Não existe nada de errado em querer adquirir casa própria. Pelo contrário. Para muitas famílias portuguesas, essa continua a ser uma legítima aspiração e uma forma de construir estabilidade e património para o futuro. A questão não está na ambição. Está na margem. Quanto menor for a folga financeira dos agregados familiares, menor será também a sua capacidade para absorver imprevistos. E os imprevistos não precisam de assumir a forma de uma crise económica. Basta uma desaceleração da atividade, um aumento do custo de vida, uma despesa inesperada ou uma alteração das condições de financiamento para colocar pressão adicional sobre orçamentos já exigidos.

É aqui que o tema deixa de ser apenas uma preocupação das famílias e passa a ser uma preocupação também das empresas.

Apesar do crescimento das exportações e da crescente internacionalização da economia portuguesa, a esmagadora maioria das empresas continua dependente, de forma direta ou indireta, da capacidade de consumo existente dentro das nossas fronteiras. Isto significa que milhares de empresas — do comércio à restauração, passando pelos serviços, pela construção e por inúmeras atividades locais — vivem essencialmente daquilo que as famílias conseguem e estão dispostas a gastar.

Quando as famílias consomem menos, estas empresas sentem-no quase de imediato.

Não se trata de anunciar tempos difíceis nem de assumir uma visão pessimista da economia. Trata-se apenas de reconhecer uma realidade simples: uma parte importante da atividade económica portuguesa continua dependente da confiança e da capacidade financeira das famílias. Por essa razão, talvez seja prudente que ao crescimento económico se junte uma preocupação acrescida com a sustentabilidade.

O contexto internacional está longe de ser tranquilizador. Conflitos armados, tensões comerciais, volatilidade energética e incerteza política continuam a marcar a atualidade económica global. Nenhum destes fatores depende de Portugal, mas todos eles podem ter consequências em Portugal.

Acresce ainda a “ameaça” permanente da subida das taxas de juro por parte do BCE. Para quem já opera próximo do limite da sua capacidade financeira, mesmo pequenas alterações podem fazer diferença.

Talvez seja precisamente por isso que este seja um bom momento para valorizar aquilo que continua a ser o principal fator de segurança das famílias: o trabalho.
Ao longo das últimas décadas, os portugueses enfrentaram crises financeiras, períodos de desemprego e ciclos económicos adversos. Superaram-nos não por via de fórmulas mágicas, mas através do esforço, da capacidade de adaptação e da vontade de construir uma vida melhor.

O crédito pode ajudar. Os apoios públicos podem complementar. As políticas económicas podem criar condições. Mas o verdadeiro gerador de rendimento continuará a ser o trabalho. É ele que sustenta as famílias, fortalece as empresas e permite à economia resistir quando os ventos deixam de ser favoráveis.
Talvez os próximos tempos exijam maior prudência e decisões financeiras mais ponderadas. Mas a experiência mostra-nos que, quando a incerteza aumenta e os desafios se multiplicam, continua a ser através do trabalho, da dedicação e da criação de valor que se encontram as respostas mais duradouras.
Porque o crescimento económico é importante. Mas a capacidade de o sustentar não é menos, e o trabalho será sempre a base dessa sustentação.

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