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Pedra sobre pedra

16 de julho de 2026 às 08 h45

Nota 1- Este texto foi escrito antes de 17 de julho, pelo que as eventuais novidades prometidas para esse dia pelo ministro Fernando Alexandre não estão, obviamente contempladas.

Nota 2- Quando Fernando Alexandre tomou posse no cargo ministerial acreditei que traria imagem e ação diferentes daquelas que David Justino ou Nuno Crato arrastaram tristemente para a Educação. Enganei-me.

Vivemos um tristíssimo momento da Educação em Portugal, inimaginável ainda há bem pouco tempo. Tenho para mim que Fernando Alexandre sonhou ser um segundo Veiga Simão o qual mudou o que o bom senso mandava mudar, indo até onde era politicamente possível e favorável aos cidadãos. Mas a diferença é abissal; Veiga Simão, concorde-se ou não com ele, sabia de Educação; Fernando Alexandre não sabe rigorosamente nada e não se rodeou de quem soubesse.

O problema que a Educação está a atravessar não começou com os exames de que toda a gente hoje fala, obviamente porque haverá poucas famílias que não tenham um jovem a sujeitar-se à avaliação escolar.

Em boa verdade tudo começou quando Fernando Alexandre decidiu desarrumar a casa e acreditou, querendo que os outros acreditassem, que iriam ser resolvidos os pecadilhos que o funcionamento dos sistemas educativos sempre trazem com eles, dos exames, das colocações de professores, da falta deles, dos edifícios a requalificar, enfim um mundo de trabalho quotidiano em que o sistema educativo é fértil.

A própria maneira como encerraram as direções de serviço nacionais e regionais que resolviam os problemas em primeira linha só se pode entender neste contexto de ignorância, para não dizer mesmo de analfabetismo, de quem não imagina como as coisas se passam.

As escolas têm os seus tempos, os seus costumes, a sua cultura em que professores, funcionários, alunos e pais se reveem. Ter sido aluno da escola A não é a mesma coisa que o ser da escola B, dar aulas numa cultura enraizada num estabelecimento de ensino não iguala outro que, veja-se lá, poderá ficar a 200 ou 500 metros de distância

Fernando Alexandre desfez o que estava feito, atirou a casa abaixo em vez de corrigir os erros que todos percebíamos existirem e onde.

A opção foi demagogicamente apregoada aos sete ventos: o problema vai ser rapidamente resolvido, pois comigo é que é. Não foi!

Para além do momento presente e da trapalhada que instaurou o caos, a questão que nos deve agora preocupar é a de saber de quantos anos iremos precisar para que tudo volte a funcionar como deve.

Porque não haja dúvidas: os próximos anos letivos decorrerão sob o signo desta atarantação. Eu sei que muitos dos que me leem dirão que as coisas estavam já mal e que esta pode ser uma oportunidade para as corrigir. É verdade, podemos ver o problema desse ângulo. Mas eu creio que muita gente perceberá que desmantelar um sistema, no caso o educativo, só se explica pela incapacidade de um grupo de políticos mais interessados no futebol ou dos festivais de musical do que no futuro da democracia que vem das escolas.

O que se precisa hoje é de rapidamente termos um ministro da Educação. Entre outras coisas devemos questionar onde está a fonte que tem contribuído para esta confusão e qual o saber que possui do funcionamento da estrutura e dos exames .

No meio de tudo isto Fernando Alexandre trata os pais de imprevidentes por terem marcado os seus períodos de descanso por confiarem no calendário escolar que Fernando Alexandre sufragou. Pobre e mal agradecido, como se costuma dizer!

Não sou admirador das teorias de conspiração. Mas admito que em breve venhamos a perceber que tudo isto tem como primeira explicação um dissimulado ataque à escola pública.

O tempo vai trazer até cá acima muito do que agora só se pode deduzir. Admito que quando soubermos de tudo não fique pedra sobre pedra.

Entretanto os alunos examinandos aguardam com paciência que a trapalhada seja resolvida, os professores não sabem o que lhes vai sair na roda. Eu aguardo o desfecho e penso nos meus 44 anos de trabalho, varridos para debaixo do tapete por um ministro que não o deveria ser.

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