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Na senda do silêncio

07 de julho de 2026 às 19 h00

Tom McCarthy celebra 61 anos a 7 de julho de 2026. Há uma década o seu filme Spotlight arrecadou o prémio de Melhor Filme do Ano na noite dos Óscares

 

Certos filmes sobre a atualidade, em contrariando da natureza, resistem ao tempo; arrisco-me a tentar adivinhar que Spotlight continuará a ser um deles. Não por o tema que retrata ser recorrente (apesar de tabu), ainda em voga e provavelmente com uma data de validade muito distante, mas pelo tratamento que foi aplicado na sua realização. Da mesma forma que o mistério foi sendo encoberto por tanta gente, também é revelado por camadas às personagens. E isso torna o filme mais real.

A premissa da narrativa é simples: a equipa de jornalismo de investigação Spotlight, situada em Boston, nos Estados Unidos da América, vira-se para um caso de abusos sexuais por parte de um padre daquela cidade. O assunto surge quando um novo editor chega ao jornal e sugere que os quatro investigadores da equipa peguem no caso, depois de ter lido um artigo sobre a possibilidade de o cardeal da arquidiocese de Boston saber dos abusos mas não ter feito nada. A partir deste ponto vai-se ferindo a paz podre instalada no segredo do meio eclesiástico ao nível local enquanto se levanta a poeira que jazia sobre ele. Uma teia de crimes semelhantes é, por conseguinte, revelada.

Os casos mantiveram-se durante décadas na senda do silêncio por envolverem vítimas menores. Durante a infância destas crianças, boa parte delas em condições de vida desfavoráveis, qualquer ajuda, tarefa ou mera atenção, ainda por cima por parte de uma entidade da igreja, lhes parecia o próprio deus a vir falar com elas, a tomar finalmente as suas dores. A culpa e a vergonha sobre os atos depois praticados impediram-nas de falar, mas o tempo muitas vezes funciona como um bom amenizador de sentimentos profundos, e os adultos em que elas se tornaram lá acabam por se abrir, mesmo que protegidos pelo anonimato.

“Spotlight joga com as regras do jornalismo de investigação, como não ter medo de empregar palavras difíceis, necessárias para credibilizar a verdade e consciencializar os leitores, mas não fere as da sétima arte em momento algum”

 

Este é um filme sério que, mesmo sabendo rir-se das pequenas coisas da vida e do quotidiano, é sobretudo ciente das grandes temáticas que pressionam a sociedade. Spotlight joga com as regras do jornalismo de investigação, como não ter medo de empregar palavras difíceis, necessárias para credibilizar a verdade e consciencializar os leitores, mas não fere as da sétima arte em momento algum: pratica uma simbiose assinalável, muito difícil de manter equilibrada durante as duas horas de fita. Para mais, toca em feridas que estão abertas em muitos lugares no mundo, pois toda a gente sabe que há assuntos que nos chegam mais depressa ao coração, e a religião é um dos que ocupa a região cimeira dessa lista.

Ao final do dia, Spotlight é uma cadeia de conversas em que nada se passa mas em que tudo acontece: as pessoas interrompem-se, exatamente como na vida real e quase nunca como no cinema, e a voz mais audível acaba por ser a da verdade. Reflete como poucas das obras que vi a importância da independência no jornalismo para este se manter rigoroso e implacável enquanto o quarto poder da sociedade que é, imune a oferendas ou outras tentativas de suborno.

Gostaríamos que histórias como esta tivessem partido da imaginação de um argumentista, mas desta vez não é esse o caso: Spotlight é mais real do que parece, e ainda assim desconfio de que fica longe de nos dar a noção da imensidão deste problema na realidade.

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