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Pressa com mapa

06 de julho de 2026 às 08 h45

Confesso um pecado antigo. Vivo entre Lausanne e Genebra, cidades sem metade da história da nossa, e durante anos cada regresso a Coimbra foi um exercício de melancolia comparada: tanta matéria-prima, tão pouco movimento. Habituei-me a ter pena da minha cidade – que é, convenhamos, a forma mais confortável e mais inútil de a amar.

Na Suíça aprendi o verdadeiro segredo das cidades que funcionam. Não é o dinheiro — Coimbra tem mais história do que Zug tem cofres. Não é a dimensão — Lausanne não é maior do que nós. É uma coisa mais rara, a que chamo impaciência organizada: gente que discorda, mas rema; instituições que competem de dia e cooperam ao jantar; uma cultura em que a pergunta «de quem é a culpa?» deu lugar a «qual é a próxima jogada e como ganhamos todos?».

Coimbra sempre teve impaciência de sobra. Mas era impaciência solta, na lógica das capelas: cada instituição a puxar para seu lado, cada geração a emigrar com o seu bocado de futuro na mala. Uma cidade pode ter oito séculos de génio e desperdiçá-lo em oito direções ao mesmo tempo. Por isso segui este Dia da Cidade, à distância, com atenção diferente. Não pelo cerimonial — isso há sempre —, mas pelo tom: há uma década, as conversas sobre Coimbra eram autópsias; hoje discute-se o que abre, quem volta, o que falta fazer. As cidades morrem primeiro nas conversas e só depois nas estatísticas e renascem pela mesma ordem. Universidade, câmara, região e empresas puxam, enfim, na mesma direção. Não escrevo de olhos fechados: falta habitação, faltam salários, falta escala. Mas a esperança não é achar que está tudo bem; é reconhecer que algo mudou de direção. E mudou. Deixei de ter pena de Coimbra. Comecei a ter pressa dela e, pela primeira vez, a pressa tem mapa.

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