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Jason Collins: um grande companheiro de equipa

15 de maio de 2026 às 08 h45

Sou um jogador de 34 anos. Sou negro e sou gay”. Foi com estas palavras que Jason Collins, então jogador dos Brooklyn Nets, se tornou no primeiro atleta a assumir a homossexualidade na NBA, a liga norte-americana de basquetebol. Estávamos em 2013 e Jason, que morreu esta semana, aos 47 anos, assinou um artigo na Sports Illustrated, uma das principais revistas desportivas dos EUA. Ele andava naquele mundo há 12 anos, já tinha passado por seis equipas diferentes. Conhecia a pressão, a exigência e os preconceitos que persistiam, dentro e fora do campo. Mesmo assim, disse-o com todas as letras: “sou gay”. Ele não queria ser um pioneiro, limitou-se a fazer o que tinha que ser feito. “Gostaria de não ter que ser o aluno que levanta a mão, na sala de aula, para dizer “eu sou diferente”. Se dependesse de mim, já alguém o teria feito. Mas ninguém o fez e é por isso que eu estou a levantar a mão”.

 

Parece uma coisa muito simples, e seria, não fosse o mundo um lugar tão complicado. Jason tinha mais de dois metros, mais de cem quilos. Era muito alto, largo, forte e um desportista de sucesso, competitivo e aguerrido. Em campo, usava o corpo como uma muralha, para bloquear os outros jogadores; corria, suava, encestava, saltava alto. Pendurava-se no cesto, que quase cedia à pressão do seu corpo atlético. Era a personificação da masculinidade. No dia em que assumiu, publicamente, ser homossexual, desfez uma data de ideias pré-concebidas. Afinal, ser gay não era ser fraco, nem frágil, e, acima de tudo, não era motivo de vergonha. No ensaio da Sports Illustrated, Jason confessa que, durante algum tempo, jogou o jogo que o mundo lhe impunha: namorou com mulheres e chegou a estar noivo. Achava que era isso que esperavam dele e queria corresponder: casar com uma mulher, ter filhos dela. “Repetia, para mim mesmo, que o céu era vermelho, mas sempre soube que era azul”.

 

A decisão de assumir quem era chegou no dia em que Joe Kennedy, seu amigo e antigo colega de quarto na Universidade de Stanford, então congressista, lhe contou que tinha participado na marcha do Orgulho Gay de Boston. Jason confessou que a conversa lhe provocou um sentimento que poucas vezes tinha sentido: inveja. Porque, ao contrário do amigo, se lhe perguntassem, ele mentiria. A decisão foi tomada nesse dia. “Quero fazer a coisa certa e não me esconder mais. Quero marchar pela tolerância, aceitação e compreensão. Quero assumir uma atitude e dizer ‘eu também’”.

 

No artigo da Sports Illustrated, Jason lembrava que ainda havia, então (e ainda há, hoje), um longo caminho a percorrer e que todos temos um papel nesta luta: “quanto mais pessoas falarem melhor, sejam gays ou heterossexuais. Tudo começa com a menção de Obama, no seu segundo discurso de tomada de posse, aos protestos de Stonewall de 1969, que deram início ao movimento pelos direitos dos homossexuais, e se estende à professora que incentiva os alunos a aceitarem o que nos torna diferentes”.

 

Jason sabia que a revelação teria consequências. Temia o impacto na sua carreira, na sua imagem pública, sobre a sua família. A avó materna, que tinha crescido na zona rural do Louisiana e visto, de perto, o horror da segregação, conhecia o lado negro da humanidade e avisou o neto sobre os riscos da exposição ao preconceito e ao ódio. Mas nada o parou. Quando se retirou, em 2014, o basquetebolista disse que queria ser lembrado como “um grande companheiro, alguém que sempre se sacrificou pela equipa”. Jason Collins partiu esta semana, mas deixa-nos com a missão cumprida. Dentro e fora do campo, foi um grande companheiro da equipa de todos nós: levantou a mão, porque ainda ninguém o tinha feito.

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