Escrita da arte portuguesa do século XX reunida em livro com observações críticas
Obra vai ser apresentada na sexta-feira no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova | Fotografia: DR
Um livro que reúne textos de 11 artistas portugueses, da pintura à escultura, fotografia ou poesia, converge numa multiplicidade de observações críticas sobre a arte da segunda metade do século XX em Portugal, afirmou a coordenadora da obra.
Depois de ter sido apresentado internacionalmente na feira de arte contemporânea ARCOmadrid no início de março, o livro “A Escrita da Arte. Textos de Artistas Portugueses (1958–1992)” foi editado pelo Círculo de Artes Plásticas de Coimbra, e tem apresentação nacional marcada para sexta-feira, nesta cidade, numa sessão integrada na programação da bienal Anozero.
Em conversa com a agência Lusa, Catarina Rosendo, responsável pela seleção e organização dos textos, notou que cada um dos artistas reunidos na obra – que tem duas edições, uma em português e outra em inglês – “escreveu muito” e essa escrita “resultou, de facto, numa multiplicidade de observações”, levando a que a antologia desenhe uma paisagem crítica do contexto artístico daquela altura.
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“Os textos estão balizados entre 1958 e 1992, mas trata-se, sobretudo, de um conjunto de artistas que surgiu no panorama português e começou a desenvolver o seu trabalho nos anos 60 e 70. Indo até um bocadinho mais atrás, a partir dos anos 50 em diante, há um processo de uma reflexão muito aturada sobre as práticas artísticas, por parte dos próprios artistas”, indicou.
Rosendo argumentou que os artistas em causa – Alberto Carneiro, Álvaro Lapa, Ana Hatherly, António Areal, Eduardo Batarda, E. M. de Melo e Castro, Ernesto de Sousa, Helena Almeida, Luís Noronha da Costa, Nikias Skapinakis e Salette Tavares – escreveram e publicaram os textos agora reunidos no livro, “porque sentiram necessidade de refletir sobre aquilo que estavam a fazer na sua arte”.
“E daí que as abordagens sejam, de facto, múltiplas. Há questionamentos sobre o que é a pintura, se a pintura ainda é válida enquanto meio, como pintar e o que pintar e o mesmo para a escultura. Estou a pensar no Alberto Carneiro (1937-2017), que escreveu intensamente sobre a sua prática escultórica, sobretudo numa altura em que fazia fotografia e já não esculpia”, vincou Catarina Rosendo.
Quanto a Helena Almeida (1934 – 2018), se não escreveu muito, produziu “um conjunto de textos muito significativo da pintura através da fotografia”, já que a artista plástica explorou esta última expressão ao longo de praticamente toda a sua vida.
Também a poesia experimental está representada no livro através de textos de poetas e artistas visuais como E.M. de Melo e Castro (1932-2020), Salette Tavares (1922–1994) e Ana Hatherly (1929–2015), que foram “absolutamente fundamentais, desde finais dos anos 1950, para renovar o pensamento crítico sobre a arte”, enfatizou a coordenadora da obra.
“Contribuíram enormemente para uma crítica de arte que, de alguma forma, se qualificou na altura”, observou Catarina Rosendo.
Embora quase sempre os artistas presentes no livro escrevam sobre o seu próprio trabalho, a exceção é o pintor Eduardo Batarda (1943-2025) que “faz um exercício de crítica de arte extraordinário sobre a figuração, numa exposição que aconteceu na Sociedade Nacional de Belas Artes, no início dos anos 70, chamada, precisamente, ‘Figuração Hoje’”.
“É um texto exemplar sobre os problemas que a arte figurativa ou pintura figurativa atravessava naquele momento, tendo em consideração que o próprio Eduardo Batarda foi, quase sempre, um pintor figurativo”, revelou.
“Há este lado de os artistas quererem cartografar uma área que estava a ser desbravada, uma grande fase de experimentação que estes artistas atravessaram nestes anos e precisavam de refletir, através da palavra, sobre isso”, resumiu.
Questionada pela Lusa sobre o impacto do 25 de Abril nos textos apresentados ou na atividade artística dos autores – já que a época temporal representada no livro se divide entre anos em ditadura e anos em liberdade – Catarina Rosendo observou que os 11 artistas representados na antologia “trabalharam todos a contracorrente do discurso artístico oficial promovido pelo Secretariado Nacional de Informação (SNI)”, organização do Estado Novo.
Embora alguns tivessem sido, segundo a coordenadora, representantes oficiais de Portugal em grandes eventos internacionais, como a Bienal de Veneza ou a Bienal de São Paulo, todos eles, seja pela pintura abstrata, o uso da fotografia ou o uso da performance, entre outras formas de manifestação artística, iam contra “uma certa figuração promovida pelo Estado Novo, mesmo nos últimos anos da ditadura”.
“Os textos refletem isso na medida em que são contracorrente e na medida em que oferecem uma alternativa àquilo que eram os modos vigentes de compreender a arte”, notou Catarina Rosendo.
A apresentação, em Coimbra, do livro “A Escrita da Arte. Textos de Artistas Portugueses (1958–1992)” está agendada para sexta-feira, a partir das 16:30, no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, epicentro da bienal Anozero.

