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Quando o património se torna motor de futuro (parte I)

10 de março de 2026 às 10 h23

A recente aprovação, na Câmara e na Assembleia Municipal, do contrato de subconcessão que permitirá ao Município assumir a gestão da “Estação Nova” marca uma etapa decisiva num processo que foi cuidadosamente preparado pelo anterior Executivo.

A recuperação do antigo terminal ferroviário do centro da cidade, inaugurado em 1931 como porta de entrada em Coimbra pela linha do Norte, significa bem mais do que a reabilitação de um imóvel histórico, profundamente enraizado no imaginário dos conimbricenses. Constitui uma oportunidade real de converter um monumento característico da arquitetura do ferro –esvaziado da sua principal função em início de 2025 devido à transição para o Metrobus – num polo de desenvolvimento económico, cultural e social!

Coimbra dispõe de dois exemplos que ilustram como a valorização de espaços patrimoniais pode gerar impacto significativo no presente e futuro do concelho. O Convento São Francisco é um caso paradigmático: espaço religioso desde o século XVII, foi hospital, quartel e fábrica têxtil no século XIX, permaneceu décadas em ruína até ser recuperado pelo Município. Hoje, é um equipamento de referência, que mudou a margem esquerda do Mondego e impulsionou a projeção nacional e internacional de Coimbra. É o maior centro cultural e de congressos da Região Centro e um espaço emblemático de Portugal. Só em 2025 recebeu mais de 136 mil visitantes em 400 eventos, afirmando-se como um agente ativo no setor do turismo de negócios, com papel estruturante na afirmação de Coimbra nas áreas da cultura, criação artística, ciência e conhecimento. Até os mais céticos reconhecem que a cidade ganhou uma nova centralidade num espaço que muitos julgavam irrecuperável…

O projeto Lufapo Hub, promovido pelo Centro Tecnológico da Cerâmica e do Vidro, reforça esta perspetiva. Onde, durante quase 60 anos, funcionou uma das maiores fábricas de cerâmica do país, existe agora um espaço multifacetado que renasceu para articular património industrial, criatividade e inovação. É um verdadeiro ecossistema em movimento: 200 empregos maioritariamente qualificados, 45 projetos incubados que geram 23 M€ de volume de negócios, um museu, um laboratório de conceção e fabrico de novos produtos, áreas de cowork, salas de formação, oficinas e ateliers de cocriação e inovação social, abertos a artesãos, empreendedores e nómadas digitais.

Inspirado no movimento New European Bauhaus, que alia arte, inovação, sustentabilidade e inclusão, projeta Coimbra para a linha da frente das indústrias criativas – um setor reconhecido como dos mais dinâmicos na economia europeia (em 2024 representou cerca de 5% do PIB da UE e empregou 2 milhões de pessoas, tendo criado 160 mil novos postos de trabalho desde 2019), e motor de inovação, emprego jovem e diversidade cultural.

Tendo como referência estes exemplos virtuosos – que combinam memória e inovação com retornos evidentes para a economia de Coimbra – a transferência da Estação Nova para a autarquia deve ser encarada além de uma simples obra de reconversão.

Pode transformar um espaço hoje vazio num ativo estratégico do concelho, peça-chave de ligação entre a Baixa e o rio, que beneficia da localização estratégica para criar um novo eixo urbano. No próximo artigo, abordarei os fatores relevantes para assegurar o seu sucesso, como todos desejamos.

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