Opinião: Eu também sou uma delas
Foi divulgado, esta semana, um vídeo de Brigitte Macron, Primeira-dama de França, a chamar “cabras estúpidas” a um grupo de ativistas do movimento #NousToutes (“Nós todas”), que interrompeu um espetáculo de Ary Abittan, num teatro de Paris, em protesto contra este humorista francês acusado de violação em 2021 (uma acusação encerrada por falta de provas, ao fim de três anos). No vídeo, filmado no último fim-de-semana, nos bastidores do teatro, o ator e humorista diz em conversa com Brigitte ter medo – referindo-se ao grupo de mulheres de máscara, que lhe interrompeu o espetáculo, aos gritos – e Brigitte Macron responde: “se houver alguma “cabra estúpida” por aí vamos expulsá-la”. A mulher do Presidente francês justifica-se dizendo que o seu objetivo era “criticar o método radical” do protesto, mas sabemos que nenhum dos dois termos aponta para a ideia de radicalismo. Nem “cabra”, nem “nojenta”, são sinónimos de “radical”. “Cabra” é, aliás, uma ofensa que só pode ser endereçada a uma mulher – e sabemos bem com que significado.
A expressão que se ouve no vídeo, “sale conne”, transformou-se num hashtag que tem estado a ser utilizado por várias mulheres francesas, algumas figuras públicas, em solidariedade para com as manifestantes insultadas. “Eu também sou uma #saleconne”, afirmam, dizendo-se “orgulhosas” de o serem. Várias vozes políticas têm exigido um pedido de desculpas formal da Primeira-dama que, até agora, não aconteceu. Outras, na sua maioria vindas do partido de extrema-direita Rassemblement National, defendem que os comentários foram feitos em privado, entre amigos, pelo que não têm carga institucional. Nada poderia estar mais errado.
Mesmo em privado, uma primeira-dama nunca deixa de representar as mulheres – e os homens – do seu país. E, não, uma Primeira-dama nunca deixa de ter voz institucional (mesmo quando deixa de o ser). Quando uma mulher com esta projeção e esta relevância pública se refere a outras mulheres, ativistas em protesto, como “cabras estúpidas” está a escolher um lado – e não é o das vítimas. E, se é certo que toda a gente tem direito à presunção de inocência, também é certo que toda a gente tem direito a defender as causas em que acredita, a manifestar-se e a protestar – e ninguém pode ser insultado por fazê-lo. Minimizar a violência de género e sexual, insultar quem se bate contra ela, é normalizá-la. E isto é particularmente inaceitável quando vindo da Primeira-dama de um país europeu, civilizado, igualitário e democrático – mulher de um Presidente que, em tempos, apontou a igualdade entre homens e mulheres como o “grande objetivo” da sua presidência.
Nunca haverá verdadeira igualdade entre homens e mulheres enquanto elas não forem livres de gritar contra o que as violenta. Enquanto o medo continuar do lado delas e a resposta for o silêncio, o recato, a vergonha, vai continuar a haver violência de género. “Cabra” e “estúpida” não são sinónimos de “radical” – e Brigitte Macron sabe muito bem disso. São insultos – e é inqualificável que uma Primeira-dama se refira nestes termos a cidadãs do seu país, mulheres em luta contra a violência sexual. Mas se, para ela, são adjetivos para qualificar mulheres que erguem a sua voz contra o que as agride, então, faço minhas as palavras das mulheres francesas que se juntam a este grito: Eu também sou uma #saleconne. Eu também sou uma delas.

