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Opinião: O Escarro

27 de outubro de 2025 às 11 h20

Há muito que as redes sociais deixaram de ser apenas espaços de convívio ou partilha de ideias para se tornarem verdadeiras arenas de combate político. O que deveria ser uma ágora moderna — um espaço para o confronto saudável de opiniões — transformou-se num campo minado de insultos, radicalismos e intolerância. As eleições autárquicas e o projeto legislativo em torno das “burcas” foram disso um exemplo claro.

Mas o problema não está nas redes em si, mas na forma como elas moldam o comportamento humano. Os algoritmos privilegiam o choque, o escândalo e o exagero. A lógica da atenção recompensa quem grita mais alto e quem ofende mais, não quem argumenta melhor. E assim, aos poucos, a razão vai perdendo espaço para a emoção; o diálogo cede lugar ao confronto.

Hoje, a moderação é vista como fraqueza. O equilíbrio, como covardia. A capacidade de ouvir o outro, como traição à própria “tribo” ideológica. Vivemos numa era em que a complexidade é sacrificada em troca de “slogans” e frases de efeito. E o resultado é um empobrecimento profundo do debate público, em que os extremos se alimentam mutuamente enquanto o centro se esvazia.

Esta degradação do discurso tem consequências reais. A polarização digital contamina a política real, endurece posições e mina a confiança nas instituições democráticas. Quando tudo é reduzido a “nós contra eles”, perde-se o espaço da construção comum — e é nesse vazio que o populismo prospera.

Mas há uma responsabilidade individual e coletiva que não pode ser ignorada. Cada partilha impensada, cada comentário inflamado, cada “like” dado à indignação contribui para este ciclo tóxico. Não se trata de silenciar a crítica, mas de recuperar a noção de que o outro não é um inimigo, mas um interlocutor.

O desafio, portanto, é reencontrar o valor da conversa civilizada. Devolver à política — e às redes sociais — o respeito pela diferença. Tolerar não é concordar: é reconhecer o direito do outro a existir e a pensar de forma distinta.

Enquanto persistirmos neste ruído ensurdecedor de certezas absolutas, continuaremos a destruir o que resta do diálogo público. E sem diálogo, a democracia deixa de respirar. Infelizmente é esse o objetivo de alguns!

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