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Opinião: “Todos, todos, todos” e não apenas alguns

20 de setembro de 2025 às 11 h22
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Recentemente, Leão XIV deu a sua primeira entrevista, como Papa, uma conversa onde falou sobre algumas das questões fraturantes na relação da Igreja com o mundo atual: os católicos LGBT+, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, o papel das mulheres dentro da Igreja. O Santo Padre disse alinhar-se com a ideia de “todos, todos, todos” do seu antecessor, o Papa Francisco, mas recusou, a curto prazo, alterações doutrinárias e reformas de fundo, para não “incentivar a polarização” com questões “muito sensíveis”. Falou para a ala conservadora, silenciando a esperança de que a Igreja possa vir a abrir-se ao mundo, num futuro próximo.
O Papa Francisco fez um caminho notável de recontextualização da Igreja no mundo atual. Nunca se coibiu de questionar e debater o que, até então, era inquestionável: o diaconado feminino, os contracetivos, o celibato, o sexo fora do casamento, a união sem casamento, o divórcio. Abriu as portas da Igreja para aqueles que, até à sua chegada, as tinham encontrado sempre fechadas: os imigrantes, os refugiados, as minorias, os homossexuais, as mães solteiras, as mulheres que abortam. Os pecadores – até aqueles que não estavam à procura de redenção. E os ateus e agnósticos. A todos recordou que são filhos de Deus – todos, todos, todos – iguais entre si; amados por Ele, por igual e em todos os seus defeitos e virtudes.
Esta primeira entrevista de Leão XIV é um cartão de visita. O Papa insistiu na ideia da “família tradicional”, que deve ver o seu papel “reconhecido e fortalecido de novo”. Sobre o diaconado feminino, diz não ter qualquer intenção de mudar “o ensinamento da Igreja”. Mostrou-nos a grande diferença entre si e o seu antecessor: para Francisco não havia ensinamentos absolutos – mesmo o que tinha como inalterável, questionou. Mostrou-nos que a inteligência e o pensamento crítico são dons de Deus, como a bondade ou a generosidade. Por isso, Francisco perguntou o proibido e quis que a Igreja respondesse, também, fora da missa: sobre o capitalismo, a guerra, as alterações climáticas, as migrações, as ditaduras – e, especialmente, sobre os seus “ensinamentos”. Como homem do seu tempo, envolveu-se nas questões dos nossos dias e tentou trazer para o mundo de hoje uma casa que, para se cumprir, tem de olhar para o presente – e ser de todos, receber todos, da mesma forma. Francisco mostrou, com o seu acolhimento e a sua abertura, que não há um modelo de família ideal – ou, sequer, preferível – e que a família cristã, à luz dos seus valores de amor ao próximo, tem obrigação de acolher. Todos, todos, todos – sem exceção. Esta é, talvez, a grande diferença.
“Estão todos convidados, mas não convido ninguém pela sua identidade particular”, frisou o novo Sumo Pontífice. É uma declaração que parte da premissa errada: a questão não é convidar alguém ao encontro com Deus pela sua identidade particular; é, antes, não excluir ninguém desse encontro pela sua identidade particular. A Igreja tem de ser essa casa comum e partilhada, onde aquilo que nos afasta encontra tanto espaço como aquilo que nos aproxima. Esta é a forma mais universal – e verdadeira – de dizer Deus. Seja Ele qual for, assuma o nome ou a forma que assumir, para cada um de nós, Ele é Amor que acolhe e une. Esse é o Seu grande ensinamento – o único que não pode ser contestado. Leão XIV disse alinhar-se com a ideia de “todos, todos, todos” do seu antecessor, mas nada atenta mais contra o legado de Francisco do que recusar as questões “muito sensíveis”. Para o encontro com Deus estão todos convidados, sim. Mas é “todos, todos, todos” – e não apenas alguns.

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