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Opinião: O Parque das Abadias, Figueira da Foz

04 de setembro de 2025 às 10 h19

No regresso da interrupção estival, no meio de campanhas eleitorais, depois de fogos dramáticos, com notícias que confirmam futuros difíceis e um retrocesso sentido nas políticas ambientais, tanto a nível internacional como europeu, apetece falar de bons exemplos.

O Parque das Abadias é uma demonstração de bom urbanismo, no respeito do ambiente e das pessoas. É um espaço muito agradável, sereno, procurado. Mas é mais do que isso. Surpreendentemente, ou talvez não, lá encontramos a figura do Arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles na sua génese. O parque foi pensado por Alberto Pessoa no âmbito da urbanização para fazer a ligação entre o Bairro Novo e o Bairro Velho, na primeira metade dos anos sessenta.

Não está exactamente como pensado pelos criadores mas continua a ser um exemplo claro de um pensamento integrado para o usufruto urbano. Primeiro, trata-se de um vale que, com qualquer chuvada, colhe água e a despeja transbordando a vala/ribeira central, e inundando durante umas horas. Pois, inundando. Mas, como não há estruturas que possam ser afectadas, casas, etc, não há problemas, não há tragédias. Os equipamentos e as habitações estão nas margens, mais altas. A ribeira não foi fechada e tapada.

Por isso não causa desmoronamentos. As inundações não são perigosas por si, só o são quando há habitações nas zonas de inundação (acho que o paralelismo com as habitações dispersas no meio de «floresta» sujeita a fogos não é rebuscado). Se não houver habitações, não há risco, a água sobe e, como o terreno não é impermeabilizado, desce facilmente, recarregando o nível freático, sem dramas, sem tragédias. E o espaço é, fora desses pares de horas anuais, utilizado para passear, para correr, para ler, dormir, piquenicar, falar, jogar, etc.

E, na ignorância de quem o frequenta, tem uma presença de vida bastante surpreendente. Uma população de rã-verde que se faz ouvir. Sendo que esta espécie tem sofrido em muitos locais com a chegada do invasor lagostim-vermelho. Mas também uma população surpreendente de Sapo-comum. O que deve juntar as Abadias ao restrito Clube de Parques Urbanos com Relevância para a Biodiversidade de Anfíbios! (é um clube fictício que existe na minha cabeça).

Prevê-se o seu tão esperado alargamento, aproximando-o da ideia original. Esperemos que sim. E que mantenha as características.

Fica o convite, venham visitar e, senhores autarcas, venham ver como se faz, os Arq. Alberto Pessoa e Ribeiro Telles não se importarão, acredito, nem os figueirenses.

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