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Opinião: O paradoxo de Fermi

03 de fevereiro de 2025 às 11 h26

O físico Enrico Fermi é um dos nomes maiores da ciência do século XX. Continua a ser célebre entre os físicos pela sua abordagem extremamente pragmática de todas as questões, eloquentemente expressa nos chamados “problemas de Fermi”. Um destes consiste na questão: “quantas civilizações avançadas existem na nossa Galáxia?”

A estimativa não é fácil e baseia-se em informação decorrente da astrofísica e da biologia: quais as condições para o desenvolvimento de vida na Terra? Quantos planetas existem na Galáxia nessas condições? E por aí fora…

Contudo, mesmo as estimativas mais conservadoras permitem concluir que o número de planetas adequados para a vida, até em sistemas solares bastante mais antigos do que o nosso, deveria ser significativo. Tal deveria ter possibilitado já o desenvolvimento de vida suficientemente inteligente para ao menos comunicar através do espaço interestelar.

Se assim é, observava Fermi, onde estão eles? Por que razão não os vemos? Apesar de todos os esforços na deteção de sinais de vida inteligente fora do nosso sistema solar, os resultados continuam a ser negativos. Esta surpreendente ausência de sinais de vida inteligente costuma designar-se “Paradoxo de Fermi”.

Na tentativa de solução do paradoxo, os conspiracionistas dirão que os sinais estão aí e que só não os vê quem não quer; este tipo de resposta costuma claudicar perante análises mais detalhadas, e tipicamente rui pela base assim que se percebe que os seus proponentes exigem que se aceite tudo e o seu contrário.

Uma resposta mais interessante é explorada pelo autor chinês de ficção científica Liu Cixin: na sua abordagem, as regras da convivência cósmica implicam que o Universo seja uma “floresta sombria”, onde cada civilização avançada se procura esconder das demais de forma a evitar ataques potencialmente fatais. A trilogia onde desenvolve estas ideias começa de forma expressiva com uma descrição dos horrores da Revolução Cultural maoísta: muito significativamente, uma das protagonistas perde de tal forma a esperança na humanidade que decide comunicar com a civilização mais próxima de forma a suscitar um ataque.

Uma outra tentativa de resolução do paradoxo, próxima da anterior na sua visão desesperada, assenta no argumento, decorrente das figuras tragicómicas que governam algumas das principais nações do planeta, que defende que o potencial autodestrutivo das civilizações avançadas mais cedo do que mais tarde as conduz ao suicídio coletivo.

Finalmente, uma solução óbvia para o problema, que o próprio Fermi não desdenharia, consiste em admitir que um ou vários dos pressupostos que conduzem à estimativa de civilizações avançadas no Universo está profundamente errado, sendo o desenvolvimento de vida inteligente bem mais raro (e digno de apreço) do que indica o atual estado do conhecimento. Na ausência de informação precisa, as respostas variam naturalmente com a nossa mundivisão.

O paradoxo de Fermi apresenta-se pois como um espelho da forma como nos relacionamos com a vida, com os outros, com o Universo. Revela-se assim um reflexo da nossa fé (entendida nesta perspetiva relacional), da nossa esperança e do nosso amor pela vida (a nossa e a dos outros). Aplicam-se-lhe, pois, as magistrais palavras que Paulo de Tarso dirigiu aos coríntios: “Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e o amor; mas a maior delas é o amor.”

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