opiniao

Opinião: A melhor justiça que podemos fazer a Gisèle Pelicot

28 de dezembro de 2024 às 15 h25

A história parece saída de um filme de terror – e até para ficção seria pouco verosímil: durante 10 anos, um homem – Dominique Pelicot, um reformado de 71 anos – recrutou online dezenas de estranhos para violarem a mulher, Gisèle, que ele drogava previamente, até ela ficar inconsciente. A mulher, hoje com 70 anos, ficava tão sedada que acordava sem consciência do abuso. Um especialista disse em tribunal que o estado dela, aquando das violações, estava mais próximo do coma do que do sono. Os abusos duraram 9 anos e Dominique foi acusado de 265 abusos sexuais e 11 mil crimes de pornografia de menores. Há mais vítimas para além da mulher: Dominique escondia câmaras para fotografar e filmar, secretamente, as noras e a filha e partilhou fotografias delas, nuas ou seminuas, online, sem consentimento. Com ele, foram julgados outros cinquenta homens. Mais de 30 arguidos foram considerados culpados de violação agravada e condenados a penas entre os 3 e os 15 anos; Dominique foi condenado a 20 anos de cadeia, a pena máxima para este tipo de crime. É um veredicto histórico, embora não haja justiça suficiente para um horror tamanho.
Foi por mero acaso que a história foi descoberta, em 2020. A polícia começou a investigar Dominique após ele ser apanhado, por um segurança, num centro comercial, a filmar sob as saias de três mulheres. Quando chegaram ao computador do criminoso, a verdade começou a surgir revelada por milhares de fotografias e vídeos de Gisèle, notoriamente inconsciente e inanimada, a ser violada por dezenas de homens. O marido participava nas violações, filmando-as e, segundo provam os vídeos, encorajando os abusadores a fazerem cada vez pior. Tudo isto acontecia em Mazan, uma aldeia de seis mil habitantes, a cerca de 30 quilómetros de Avignon.
Entre os violadores há homens dos 21 aos 68 anos, com todo o tipo de profissões: bombeiros, empresários, jornalistas, militares, informáticos, cabeleireiros ou enfermeiros. Até o diretor de uma prisão. Há solteiros, casados e divorciados. Uns têm filhos – e filhas – outros não. Alguns visitaram a casa de Gisèle apenas uma vez, outros eram reincidentes. Com um dos violadores, a prática era recíproca: Dominique ensinou-o a drogar a sua mulher, como ele fazia com Gisèle, e violava-a repetidamente. Pelo menos um dos violadores era seropositivo e, sabendo-o, nunca usou preservativo. A polícia contabilizou um total de 72 homens, mas só 51 foram formalmente identificados. A maioria dos acusados alegou inocência, até ao fim do julgamento, apesar da existência de fotografias e vídeos que provam de forma clara e inequívoca os abusos a Gisèle. Alguns disseram em tribunal que, havendo o consentimento do marido, o que fizeram não podia ser considerado abuso. Um deles contou ter ido a casa de Gisèle para celebrar a sua “despedida de solteiro”; outro estava em casa dos Pelicot enquanto a mulher dava à luz, no hospital.
Gisèle casou com Dominique em Abril de 1973. Tinham três filhos e já eram avós. Durante anos, Gisèle acordava com “apagões de memória”, fruto da medicação que o marido lhe dava. Tinha vários problemas ginecológicos, recorrentes, que não conseguia explicar. Depois de ter sido revelada a verdade, fez análises que revelaram que tinha quatro doenças sexualmente transmissíveis e tinha sido exposta ao HIV. Durante 9 anos, Gisèle – que terá sido violada cerca de 200 vezes – adormecia para um pesadelo, dentro da sua própria casa, na cama de casal que partilhava com o marido há décadas – traída e violentada às mãos de quem lhe merecia a maior confiança. Quando o julgamento começou, Gisèle pediu que fosse público para que todos soubessem do horror a que foi submetida. Ouviu todos os testemunhos de cabeça erguida, enfrentou a verdade sem vergar. Quando lhe perguntaram porque é que o fazia, respondeu: “quero que todas as mulheres violentadas digam: a senhora Pelicot fez isto, eu também posso. Não quero que continuem a ter vergonha. Não nos cabe a nós ter vergonha, mas a eles”. Não há justiça suficiente para Gisèle, mas a melhor justiça que lhe podemos fazer é honrar a sua luta e nunca mais ter vergonha. Está na hora da vergonha mudar de lado.

Deixe o seu Comentário

O seu email não vai ser publicado. Os requisitos obrigatórios estão identificados com (*).


Últimas

opiniao