Opinião: Saint Louis

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Desloquei-me, no início de abril, a Ross-Béthio, na região de Saint Louis. Aos expatriados, viajantes e conhecedores da costa africana, o nome de Saint Louis evocará memórias de uma cidade singular, detentora da mais característica arquitetura colonial no país – é, e partilha-o com a ilha de Gorée, o verdadeiro postal do Senegal.
A meros quilómetros da fronteira com a Mauritânia, da qual Saint Louis foi também capital ( 1920-1957 ), dirigi-me ao Governador da região, ao Presidente da Câmara, à imprensa e a jovens para uma cerimónia que consolidou não só o nosso apoio a uma das prioridades que definimos na Embaixada em Dakar como um certo desígnio pessoal: a cooperação na área da saúde. Assim, entregámos duzentas apólices de seguros a crianças migrantes regressadas ao Senegal, um grupo particularmente vulnerável no acesso a cuidados de saúde.
Não foi uma viagem sem obstáculos. O longo trajeto, por estradas pouco pavimentadas, evidenciou a necessidade de cooperação nas zonas periféricas da África Ocidental, agudizada pelas populações que embarcam, diariamente, no êxodo urbano rumo às grandes metrópoles. Mas não só no percurso testemunhei uma realidade que é, por vezes, dificilmente observável na capital. As peculiaridades da região fronteiriça, onde as línguas locais dominam face ao francês administrativo exigiram, por exemplo, a interpretação simultânea do meu discurso para o próprio autarca local.
A promoção da reintegração de mulheres e crianças de regresso ao Senegal garante uma longa cadeia de benefícios de que todos usufruem. A dinamização da economia local, o acesso à escolaridade e a cuidados de saúde, o controlo de fluxos migratórios irregulares, a compreensão e bem-estar multiétnicos são frutos de um trabalho exemplar da ONG Jeunesse Espoir, nosso parceiro de implementação do projeto, e cujo profissionalismo e competência ao longo da sua conceção e realização são de louvar.
Nenhum pai deveria ter de escolher entre pôr comida na mesa e enviar os seus filhos para a escola ou para um hospital. Nenhuma criança deveria ser privada de educação ou de cuidados de saúde. Por isso assumimos, com os nossos parceiros, os custos da saúde e educação dos filhos de mulheres migrantes que regressaram à região de Saint Louis. Esperamos que, ao fazê-lo, estas corajosas mulheres possam agora concentrar-se no desenvolvimento pessoal e profissional, seguras de que a saúde dos filhos está, por fim, garantida.

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