Opinião – Desafinar!!?

Posted by

Sei que vou desafinar com a classe política. Pelo menos, com a maioria. Andava a dita cuja a discutir e a planear a descentralização de competências do Estado para as autarquias e para as Comunidades Intermunicipais (autarquias associadas) quando pudemos constatar que, de repente, qual salto acrobático, introduzem de rompante o tema da regionalização.
Eu que pensava que os espasmos do autarca mor do Porto, qual personalidade narcisista, estavam isolados e atolados numa mistura de necessidade de se colocar em bicos de pés, ora contra o Tribunal de Contas que insiste (e bem) em não deixar criar empresas municipais que não tenham um plano minimamente consistente e sustentado, ora contra a sua própria área metropolitana de onde entretanto se auto afastou, ora contra o Governo porque, segundo ele , pretendia transformar a autarquia do Porto numa “espécie de direção geral”. Mas, pelos vistos, os “regionalistas” deste país mais uma comissão de “sábios”, ou melhor ex-políticos de relevância mais ou menos relativa, acordaram as suas vozes e lançaram “um grande debate nacional” sobre esse desejo que palpita em cada um de nós portugueses – regionalizar Portugal !
Alguns dos mesmos que recusaram receber competências do Estado para as suas autarquias e CIM ou AM, para melhorar a vida das pessoas, para aproximar as decisões, para gerir melhor os recursos e dignificar a vida de tantos funcionários públicos e, principalmente, a vida dos cidadãos, pensam que criar mais um nível político eleito democraticamente entre Estado Central e municípios, é a solução porque “estão fartos de Lisboa”.
Isto tudo em Portugal. Um País que tem um Estado saído da falência e cuja classe política só pensa basicamente nela. Eu até peço, aqui mesmo, desculpa pela dureza das palavras, mas como cidadão interessado, que reconhece o excesso de centralismo do Estado, a pouca propensão para a classe política trabalhar em conjunto, seja entre Ministérios, seja entre autarquias, não consigo entender a pertinência, a oportunidade e a utilidade desta ideia de regionalizar Portugal.
Portugal é um pequeno país, com tradição marcadamente municipalista, sem nenhuma clivagem histórica regional, para além da “clubite” existente nos adeptos do futebol. Não precisamos de divisões onde natural e historicamente não existem. Não precisamos de novas rivalidades, nem de novos motivos para dislates de meia-dúzia de caciques locais ou regionais. Talvez precisemos de Presidentes de Comissão de Coordenação Regionais eleitos entre autarcas, representantes de empresas, comunidade académica e cientifica em lugar de serem nomeados pelo Governo, de modo a terem alguma força política adicional e liderarem alguns desideratos mais locais.
Se não temos boas representações “regionais” ou distritais na Assembleia da República é preciso mudar o modo como os partidos escolhem os seus candidatos a deputados, promover outros métodos como os círculos uninominais, para fugirmos à mediocridade imposta. E, já agora, para completar a minha desafinação e deixar a minha estupefação, por falar em partidos políticos, o que se passa no PSD de Coimbra é confrangedor. A dança de cadeiras entre meia dúzia de pessoas que se protegem mutuamente não tem paralelo histórico. O líder distrital demite-se porque não concorda com os métodos e com alguns protagonistas nacionais, não sem antes combinar devidamente com um dos outros que já fazia parte dessa direção, a devida troca de lugares. Junte-se a isto alguns convites feitos ainda mesmo antes da “demissão” e umas eleições marcadas à pressa cumprindo prazos mínimos estatutários, e estamos conversados sobre as principais preocupações destes “atores políticos”. Quanto menos debate melhor. Quanto mais silêncio melhor. Diria eu, quanto mais mediocridade melhor, para mal dos cidadãos que, realmente, precisavam de líderes diferentes. Qual ideal ou coragem política ? Qual programa para recuperar autarquias no distrito ? Qual ideia para desenvolvimento regional (tirando a da regionalização, claro) ? Talvez seja eu que esteja a ver mal os assuntos. Ou talvez, o resultado disto tudo seja a continuidade do afastamento entre políticos e cidadãos, tal é o desfasamento de prioridades. Arrisco mesmo a afirmar que grande parte desta gente até já se esqueceu para o que deveria servir a intervenção pública e política. Arrisco mesmo a pensar que o circulo está tão fechado que não se dão conta do quão mal fazem à sociedade que, afinal, trabalha, paga impostos e só quer que o Estado cumpra de forma competente em cada um dos setores e níveis de atuação. Sem mais cargos políticos. Mas, com mais competência.

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.