Opinião: Onde estão as alternativas?

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Em Portugal, nos últimos anos, levámos todos uma esfrega de macroeconomia e não há quem não saiba e atribua a devida importância ao défice das contas públicas, ao valor da dívida pública ou ao crescimento do PIB. A maioria percebeu que os recursos públicos são limitados e se mal geridos, sai-nos do bolso. Aqui e ali, ainda ouvimos uns devaneios da Sra. Martins do BE, mas provavelmente será mais para marcar a agenda do que propriamente para a levarem a sério. Esta ideia é de tal modo assim que a quem governa basta falar no défice baixo, mesmo que o tenha renegado durante anos – porque se hoje é aproximadamente zero e pagamos muito menos juros, o défice em 2011 era mais de 11% e quando este governo iniciou funções em 2016, estava abaixo de 3%. Com a economia a aguentar-se e a taxa de desemprego em baixa, a discussão política fica consignada a alguns casos da semana e a oposição parece não encontrar o seu rumo, nem uma mensagem política clara de alternativa a quem basicamente governou para dentro da máquina do Estado, ainda que paradoxalmente nunca tenha havido tantas greves de serviços públicos.

A Saúde está a rebentar pelas costuras, a educação andou em guerra pela recuperação de carreiras, a defesa gastou metade do tempo a discutir o caso de Tancos, tivemos incêndios que devastaram centenas de vidas humanas, a administração interna confundiu-se com o borda de água e, mesmo assim, no fim da legislatura parece não existir alternativa de futuro. Isto vem a propósito de um estudo que li no caderno de economia do jornal Expresso, sobre a qualidade da despesa pública, cujas estatísticas mais recentes são relativas a 2016/2017. E sobre despesa pública (o destino de todos os impostos que pagamos para o Estado e que o Governo gere) existe a denominada despesa pública de longo prazo, que segundo o estudo, é a despesa pública “amiga” da economia e que permite desenvolvimento futuro. Nestas despesas estão incluídas, devidamente classificadas por padrões dentro da União Europeia, as despesas com educação, com proteção ambiental, com Infraestruturas e equipamentos de transportes públicos (os passes baratos para Lisboa não contam), despesas de comunicações, Investigação e Desenvolvimento, despesas aplicadas diretamente na economia, inovação aplicada a vários setores do Estado, etc.

Ora Portugal, em 2016/2017, gastou 7,7% do PIB neste tipo de despesas que gera desenvolvimento futuro no País. Mesmo no tempo da Troika, o valor foi mais elevado. Somente a Roménia e a Bulgária, dois dos países mais pobres da Europa, gastaram ainda menos do que Portugal. Há 10 países com a Estónia à cabeça, que gastam mais de 20% do PIB em despesas que estimulam o crescimento, a produtividade e a criação de riqueza, e somente 5 países gastam menos do que 16,8% . É caso para dizer que estamos conversados sobre a qualidade da nossa despesa pública, que até pode ser “amiga” da esquerda, mas não aponta seguramente para um futuro melhor para Portugal. São estas e outras alternativas que deveríamos discutir em Portugal, em vez de ficarmos contentes porque agora até o PS consegue um défice baixo.

Estas políticas do poucochinho em contraponto com uma visão de futuro para Portugal, é que deveriam ser estudadas e analisadas, em vez de se andar a discutir se deveria haver uma bancada vazia de deputados correspondente aos votos brancos. E quando perguntam numa entrevista de fundo ao nosso PM, qual seria a reforma que ele gostaria de implementar na próxima legislatura, e ele responde “tratar das carreiras dos quadros superiores do Estado”, estamos conversados sobre a visão e a ambição. De um lado temos isto, do outro, temos a reforma do regime político apresentada como se fosse o alfa e o ómega do desenvolvimento nacional. Até pode haver um artigo no Finantial Times que diga bem do trajeto Português e isso nos deixar a todos felizes, mas Portugal precisa de falar sobre o futuro porque se nada fizermos ,daqui a 10 ou 20 anos, continuaremos a queixar-nos dos males de sempre.

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