Opinião: Carrega, Cristina! Descarrega, Cristina!

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Cristina Neves Tavares é operária. Nunca lhe terá ocorrido tornar-se famosa. Afinal, a história de Cristina não é muito diferente da de muitos outros trabalhadores. É uma história de exploração, de humilhação e repressão. Cristina foi despedida. Mas a operária acabaria por ser reintegrada na empresa onde trabalhava, a “Fernando Couto Cortiças” de Paços de Brandão, Santa Maria da Feira, por sentença do Tribunal do Porto que lhe reconheceu razão quanto ao seu despedimento injustificado. A empresa foi ainda condenada ao pagamento de indemnização por danos morais. Reintegrada, Cristina foi isolada pela empresa dos demais colegas e desde então – denuncia o Sindicato dos Operários Corticeiros do Norte/CGTP – está “a carregar e a descarregar os mesmos sacos com mais de 15/20 kg para a mesma palete”, num ambiente ao sol que atinge “temperaturas muitas vezes superiores aos 40/45 º C (com constantes hemorragias nasais), (…) ao “arrepio” das recomendações” da medicina do trabalho da empresa! Carrega, Cristina! Descarrega, Cristina! Carrega, Cristina! Descarrega, Cristina! Carrega! Descarrega! Carrega! Descarrega! Ora toma, que é para aprenderes que não se brinca com o patrão! Carrega, Cristina!
Cristina, denuncia o Sindicato, é vítima de “constantes provocações verbais”. O SOCN salienta ainda que a trabalhadora está proibida de estacionar o carro dentro do parque da empresa, ao contrário de todos os outros trabalhadores. Aprende, Cristina! Se queres ir à casa de banho, então não podes aceder à casa de banho dos trabalhadores! Cristina está obrigada a deslocar-se a uma ‘instalação especial’ que “lhe foi ‘atribuída’, sem o mínimo de privacidade e que tem de cobrir com um pano preto que trouxe de casa”.
O Sindicato acusa a empresa de manietar os trabalhadores, levando a que alguns se manifestassem contra a colega, tendo inclusivamente havido trabalhadores que testemunharam em tribunal a favor da entidade patronal, o que de nada serviu.
A solidariedade aumenta. Decorreu uma acção de protesto, junto à porta da empresa de Paços de Brandão, organizada pelo Sindicato, com a presença do secretário-geral da CGTP-IN, Arménio Carlos.
Entretanto, o jurista do sindicato realçou perante a comunicação social que “os argumentos da empresa quanto à indisponibilidade de Cristina Tavares para aceitar outras funções, tal como a limpeza das instalações sanitárias da fábrica, não têm validade legal e só demonstram a sua ‘falta de pudor’. O Tribunal disse que ela tinha de ser reintegrada nas funções anteriores e limpar casas de banho não é a categoria profissional que ela tinha antes do processo judicial”, acrescentando que “limpar casas de banho não tem nada a ver com cortiça”…
A Autoridade para as Condições do Trabalho fez inspecções à empresa em Maio e em Julho, e instaurou um processo de contra-ordenação. Mas os abusos prosseguem.
E Cristina carrega! E Cristina descarrega! E carrega. E descarrega! Carrega! Descarrega!

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