Opinião: Jornalismo encenado

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Bruno Paixão

Bruno Paixão

Contava-se há uns anos, nos bastidores do jornalismo, que um conhecido repórter foi chamado para fazer a cobertura de uma alegada descarga poluente num rio. Ao chegar, deparou-se com uma meia dúzia de peixes à tona da água. Arregaçou as calças e juntou-os, para que a câmara captasse em grande plano o falso aglomerado e transmitisse a ideia de enorme catástrofe ambiental. A informação manipulada saiu na televisão, a encenação logrou a notícia de uma realidade fabricada. A mentira triunfou. Esta história, que é verdadeira, é apenas a ponta do iceberg de uma maleita que tem feito ruir o edifício do jornalismo sério e tem desmoronado a imagem do repórter cioso, ético, romântico, disposto a arriscar a pele em nome da verdade.

Não expirou o ideal de jornalista enquanto pessoa inteligente, curiosa, sem imposições, sagaz e aguçada. Mesmo que aparente estar em vias de extinção, ele ainda existe, ele é anónimo. Ele existe porque é anónimo. Ele observa num viés soçobrante o movimento deslumbrado da nova vaga formatada e ordeira de gente jovem que chega ao jornalismo com a fantasia de poder ser uma estrela. De ser uma estrela à custa dos factos, sejam eles quais forem, desde que uma câmara e um microfone os façam brilhar no ecrã da sala de estar do público. Esta nova vaga, tal como alguma velha vaga, debita opinião imatura, não esconde a sua atração pelo trágico, e é insensível à verdade. Dá tudo pelo espetáculo travestido de informação. Trabalha noite e dia, muitas vezes a troco de uma miserável remuneração, desde que o seu rosto apareça no final da notícia.

A televisão vive de som e de imagem, e é muito ingrata nesse sentido, porque sem imagens, não há história. Alguns telejornais estão impregnados de sensacionalismo, telespetáculo para emocionar e divertir o público, de diretos dramatizados, tal e qual como nas novelas. Há uma distância ténue entre a ficção e a realidade. Esse modelo representa a fórmula mágica capaz de magnetizar a atenção dos públicos. Isso vê-se nas imagens em que os manifestantes começam a gritar e a agitar cartazes quando a câmara está por perto. O jornalista procura-os. É espetáculo garantido. A busca da confusão, o pedido às claques na rua para gritarem muito quando a câmara começar a gravar, tudo isto é encenação. Pura encenação. Os factos criados são uma realidade fabricada para dar folclore aos noticiários. Eles gritam como se não houvesse amanhã. Envolvem o jornalista, que simula esforço para conseguir trabalhar. Ele gosta do frenesi, adora aquela ebulição. É levantado e, às vezes, beijado (por bigodes farfalhudos, emplastros e outras espécies raras). Mas não faz mal. Isso faz parte do espetáculo. Desde que o jornalista faça parecer a entrada do estádio de futebol numa frente da guerra do Iraque. Desde que consiga converter o facto ligeiro numa notícia absolutamente bombástica. Desde que tenha a lata suficiente para pedir a colaboração dos “atores” de rua. E desde que diga com um sorriso cintilante o seu nome no final da peça. A cada aparição mediática reaparece o jornalista-estrela, a vedeta moderna, o hodierno astro televisivo.

Essa é a imagem que hoje se tem do jornalista, um novo estereótipo que contamina o imaginário coletivo. Para a sociedade, a contemporaneidade afundou o jornalista de referência e deu à costa o jornalista de reverência – uma reverência à imagem e à notoriedade postiça.Lamentavelmente, a parceria entretenimento-informação parece ser uma receita de sucesso para garantir a audiência. Nesse sentido, a reportagem e a notícia fazem parte do show audiovisual. E a ordem é clara: the show must go on.

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