Opinião: Novos hábitos para velhos vícios

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Habituámo-nos a declarar que o jornalismo protege a democracia, cabendo aos jornalistas o fundamental papel de vigilância. Também por isso o jornalismo foi, durante largas décadas, uma das profissões mais respeitadas. Aliás, tão respeitada quanto temida. Desde ameaças, intimidações e intromissões junto dos proprietários dos media, aqueles que exerciam o poder procuravam tudo para que algumas notícias não fossem publicadas, ou que assuntos sensíveis deixassem de ser investigados. Ainda hoje assim é.

Uma “má” notícia podia (ontem mais que hoje) levar à demissão de políticos, à ruína de empresas, a uma perceção pública negativa dos Estados e suas causas. É claro que também há peças jornalísticas que afetam a credibilidade dos visados sem que os alegados factos noticiados estejam comprovados.

Todavia, a forma como a inteligência digital passou a lidar com o poder do jornalismo virou do avesso os métodos dissuasores que até aqui vigoravam. Os velhos procedimentos foram ficando obsoletos. Lembro-me do caso do SIS (as secretas portuguesas), que há dez anos foi apanhado a revolver a faturação detalhada do telemóvel do jornalista Nuno Simas, que vinha escrevendo artigos incómodos sobre esta organização. O escândalo em que se converteu este caso passa até por anedótico se for comparado com as revelações feitas por Edward Snowden, na altura analista de sistemas na Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos, que denunciou em 2013 o pernicioso sistema de espionagem através de sofisticados meios tecnológicos levado a cabo pela agência norte-americana.

Várias organizações vêm alertando para o facto de a espionagem sobre o trabalho dos jornalistas ter passado a ser sistemática. A Amnistia Internacional denunciou o caso do software Pegasus, indetetável, capaz de invadir telemóveis, tablets e computadores, copiar arquivos e extrair ficheiros sem que o dono se aperceba. O caso foi publicado pelo jornal britânico The Guardian, tendo causado grande repercussão, conduzindo à empresa israelita que o desenvolveu, a NSO.

A ameaça física e a coação foram substituídas pelo assédio informativo. Ao conseguir vasculhar telemóveis e computadores, mesmo que estes estejam desligados, opera-se uma ação que visa manipular os dados, distorcê-los e gerar desinformação a partir do material que o jornalista tem consigo.

O mercado da informação na era digital já não é o mesmo. Os jornalistas correm o sério risco de deixar de ter controlo sobre dados que julgavam estar seguros. Estes ficam corrompidos sem que o jornalista se aperceba. Não será difícil imaginar a variedade de programas que podem hackear redes sociais, telemóveis, computadores e o correio eletrónico dos jornalistas. Isto é ainda mais grave visto comprometer irremediavelmente a relação entre as fontes de informação e os jornalistas, dado que estes deixam de poder garantir o anonimato e a privacidade a quem lhes fornece a informação.

A capacidade de investimento do grande poder financeiro para gerar este tipo de armadilhas eletrónicas de espionagem é sobejamente maior do que os Estados costumam gastar para proteger a informação. O cenário piora quando são alguns governos a adquirir programas para monitorizar e controlar a informação, sem declinar a oportunidade ditatorial.

Uma das ironias da era digital consiste na possibilidade de abandono do mundo online por parte daqueles que precisam de proteger a privacidade e a segurança, bem como afastar olhares indesejáveis. Isto seria o regresso possível ao papel, à fotografia impressa, às cassetes e aos velhos gravadores analógicos usados pelos jornalistas. Tudo para defender o mundo de si próprio.

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