Opinião – A notícia… ou outra coisa qualquer

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Há uns anos, lembro-me, havia uma agência de comunicação com um slogan premonitório: “se não apareceu nos jornais, é porque nunca aconteceu”. De facto, a espuma do tempo ditava que os acontecimentos só existiam verdadeiramente se fossem levados ao conhecimento do público. Estávamos no final dos anos 90 e o mundo de há vinte anos não era igual ao de hoje. Eu estava a estudar jornalismo e fui interpelado por aquilo a que, na academia, se batizou por “pseudoacontecimento”. Uns anos antes, em 1992, o Lusitânia Expresso, um frágil ferry boat com ativistas e jornalistas a bordo, tentou chegar a Timor-Leste, na altura ocupado pela força opressora da Indonésia. Chegado ao largo, viu-se rodeado por quatro barcos de guerra. Foram deitadas flores ao mar e, sobretudo por não ter podido entrado em Timor, o impacto mediático foi alcançado. A ação foi um êxito! Eis o exemplo de pseudoacontecimento: feito para os media.

Mudámos de século, mudámos de milénio, e outras aspirações passaram a vincar a tez súbita da sociedade: incandescente, veloz, levada numa torrente de metamorfoses e de repentinas aragens. Naquela altura, a comunicação social não tinha ainda sido estrangulada pela comunicação viral. Isso aconteceu mais recentemente.

Ainda que os jornais estejam a transitar para o digital, continuam a sentir o constrangimento de não serem instantâneos como as redes sociais. Não são e não poderão ser. Isto porque no momento em que tiverem mais pressa do que deviam, deixam de dar notícias: passam a dar uma outra coisa qualquer, mas não notícias. Só com tempo é possível verificar a veracidade das histórias, a autenticidade das fontes, a exatidão dos relatos, a confrontação entre as divergências em causa. Sem isto não existem notícias.

E por que são importantes as notícias? Porque elas são o coração da comunicação social. E sem jornalistas não há contrapoder nem uma esperança maior na justiça. E, claro, sem essas condições definha-se a democracia.

Quando Francis Fukuyama publicou “O fim da história e o último homem”, alertando para a existência de um trilho feito de democracia, capitalismo, consumismo e liberalismo, celebrado com otimismo por ocasião do fim da União Soviética, mas ensombrado pela derradeira ânsia de poder, não avistou as consequências imediatas dessa evolução. Aliás, ninguém o fez, por esse avistamento estar na altura mais perto da ficção científica do que da realidade que a nossa era enfrenta. Até os países marcadamente comunistas sucumbiram ao consumo, como a China. E, no outro hemisfério, até os países que semearam guerras em nome da democracia e semearam primaveras árabes, como os EUA, converteram-se em regimes desequilibrados, desrespeitadores dos acordos de paz, rasgando compromissos económicos e ambientais, assumindo uma linguagem belicista, tornando-se agressivos, ameaçadores e fomentadores de um certo nacionalismo divisionista e propagador de ódio.

Como se chegou aqui? Em parte, também graças à comunicação e às suas novas armas. Graças ao gatilho rápido, imediato e viral das redes sociais. Com um post de cinquenta caracteres incendeia-se o mundo moderno. A comunicação tradicional foi substituída pela comunicação viral. Esta é gratuita, lê-se depressa, não ocupa tempo nem espaço, capta a atenção. A sua superficialidade torna-a, infelizmente, imbatível. O conteúdo foi banido pela viral ligeireza. O leite já foi derramado. Valerá a pena chorar?

 

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