Opinião – Comparar o incomparável

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Rui Brites

Rui Brites

“Há três tipos de mentiras: as mentiras, as malditas mentiras e as estatísticas”
Mark Twain

O dia Internacional da Felicidade, que se comemora no dia 20 de Março, foi instituído por resolução da Assembleia-Geral das Nações Unidas em Junho de 2012.

Aquando da primeira comemoração, em 2013, o Secretário-Geral divulgou a seguinte mensagem:
“A busca da felicidade está no centro da ação humana. Pessoas em todo o mundo aspiram a uma vida feliz e gratificante livre de medo e privações, e em harmonia com a natureza. No entanto, para demasiadas pessoas a viver em situação de pobreza extrema, o material básico para o bem-estar ainda está fora do seu alcance. Para muitas mais pessoas, as crises socioeconómicas recorrentes, a violência e a criminalidade, a degradação ambiental e as crescentes ameaças das mudanças climáticas são uma ameaça sempre presente”.

Desde então, as Nações Unidas têm publicado o Relatório Anual da Felicidade no Mundo. Em 2015 Portugal ocupa a posição 94 entre os 157 países avaliados, à frente da Grécia (99), Albânia (109), Ucrânia (123) e Bulgária (129). A posição relativa de Portugal não se estranha, pois é recorrente. Mas já se estranha o facto de estar atrás de países como o Líbano (93), Kosovo (77) e Somália (76).

De acordo com os autores do relatório, o índice de felicidade traduz a resposta dos inquiridos a uma única pergunta sobre a avaliação que fazem da sua qualidade de vida, medida numa escala que vai de 0 (o pior possível) a 10 (o melhor possível).

Consideram nas suas análise que o mesmo é explicado pelo PIB per capita, a expectativa de anos de vida saudável, o apoio social da comunidade, a perceção da corrupção, a liberdade para tomar decisões e a generosidade.

Ora, falar de qualidade de vida, de liberdade, de anos de vida saudável e corrupção no Líbano, Kosovo e Somália, será equivalente a falar do mesmo nos países do Ocidente? Não creio e tenho muitas dúvidas que um somali pense nas mesmas coisas que pensa um português quando é questionado sobre a sua qualidade de vida e lhe pedem para se autoposicionar na escala de resposta.

Então o que é que o Índice compara? Compara a resposta dos inquiridos em contextos profundamente desiguais e, por conseguinte, incomparáveis. Se tivermos em conta a mensagem de Ban Ki Moon em 2013, percebemos a patetice da comparação.

É caso para dizer, como alguém disse, que a estatística é a forma mais credível de mentira. Mas não é verdade, não é a estatística que mente, é o seu uso inadequado e muitas vezes manipulado, que é mentiroso.

Comparar países em estádios de desenvolvimento económico e social tão díspares, não é legítimo. É o problema dos rankings que, como se sabe, não são objectivos na ordenação mas permitem proceder às comparações que dão jeito. Os coeficientes estatísticos têm uma “história” e, sem conhecer o seu contexto, não têm qualquer validade. Ou seja, o ranking da felicidade tal como é “medido” no Relatório das Nações Unidas, não pode ter qualquer efeito prático, situando-se ao nível dos livros e das palestras sobre auto-ajuda.

O “estado da arte” sobre a felicidade expresso no chamado “Relatório da Comissão Stiglitz” que tinha como objectivo orientar as políticas públicas no sentido de melhorar o bem-estar subjectivo dos povos, considera as seguintes dimensões como determinantes: “Padrões materiais de vida (rendimento, consumo, e riqueza)”; “Saúde”; “Educação”; “Actividades pessoais, incluindo o trabalho”; “Voz política e governação”; “Conexões e relações sociais”; “Ambiente (condições actuais e futuras)” e “Segurança de natureza económica e física”.

Não obstante, não vão faltar análises e interpretações sobre o mesmo.

Pelo que já vi escrito na comunicação social, os opinólogos vão lamentar a descida de Portugal no ranking, pois estava em 88º no ano passado. Entretanto a Finlândia está preocupada pelo facto de os reformados finlandeses escolherem Portugal para gozarem a reforma em vez de optarem por fazê-lo no seu país. Também os reformados franceses, ingleses, alemães, suecos e até dinamarqueses, certamente cansados de serem tão felizes nos seus países, escolhem cada vez mais Portugal para viverem e, porventura, serem menos felizes.

Sejam felizes e considerem a busca da felicidade o principal desígnio da vossa vida.

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