Opinião – Os surdos em bolandas

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José Afonso Batista

José Afonso Baptista

Coimbra tem uma história e uma longa experiência na educação de crianças e jovens surdos que teve início em 1964 quando Bissaya-Barreto (BB) tomou a iniciativa de criar o Instituto de Surdos Mudos de Bencanta (ISMB). Até então excluídos da escola, os surdos tiveram aqui uma oportunidade pioneira de integração e socialização.

Foi uma obra de grande alcance humanitário, como o foram em geral as iniciativas de BB, coincidindo no tempo com uma revolução científica que viria a mudar o estatuto e as condições de vida do surdo.

Trata-se do desenvolvimento das ciências da linguagem e da descoberta de que as línguas gestuais são tão naturais como as línguas faladas e igualmente aptas para as funções cognitiva e comunicativa; e trata-se simultaneamente do aprofundamento das neurociências e da demonstração de que o cérebro dos surdos é igual ao dos ouvintes, conferindo-lhes as mesmas aptidões para aquisição da linguagem e para a comunicação.

A diferença está em que as línguas faladas utilizam uma substância sonora, inacessível aos surdos, mas as línguas gestuais são visuais e constituem o meio privilegiado para a comunicação das pessoas que não ouvem.

Bissaya Barreto, um homem de ciência e de uma cultura invulgar também na área da educação, traçou dos surdos um perfil trágico porque já não pôde assistir à revolução científica que se iniciou na década de 60 e que viria a mudar radicalmente a imagem das pessoas que não ouvem.

O ISMB prosseguiu o rumo das escolas de surdos em geral, no nosso e noutros países, sem perceber que as línguas gestuais começaram a ser reconhecidas e adotadas como línguas oficiais dos surdos em todo o mundo, a partir da década de 80, e sem  peceber que os surdos, educados na sua língua natural e na sua cultura, se desenvolvem ao mesmo ritmo e ao mesmo nível dos ouvintes.

Quando finalmente se preparou a mudança de paradigma e se criaram condições para adotar a Língua Gestual Portuguesa (LGP) como língua de ensino e de comunicação no ISMB, logo no início do milénio, o ministério da educação, unilateralmente e sem qualquer justificação ou fundamento decidiu integrar os alunos surdos nas escolas regulares, uma “integração selvagem”, porque se desfez uma comunidade de prática e de aprendizagem da LGP e se dispersaram as crianças, privando-as da comunicação na sua língua natural.

As escolas regulares não estavam minimamente preparadas para receber alunos de outra língua, criando situações de incomunicabilidade e incompreensão, que muitas vezes levaram crianças pacíficas a situações de indisciplina e de violência. Sempre a prepotência de uma adminsitração ignorante a obstaculizar a inicaitiva e a criatividade em função da investigação científica.

Volvidos 15 anos, o ministério da educação insiste na agressão aos surdos e às suas famílias, impondo uma mudança de escola sem sentido, num gesto de autoritarismo e de desrespeito pelas escolas impensável num tempo em que prega a descentralização, a autonomia e a responsabilidade dos estabelecimentos de ensino e ao mesmo tempo impõe decisões sem sentido e atropela todas as regras do bom senso, da economia, e da própria educação.

Há mais de 20 anos que os surdos do ensino secundário frequentam a Escola Secundária Avelar Brotero. Esta escola adquiriu uma experiência valiosa, formou professores nesta área especializada e mais: na sua recente remodelação, adaptou, mobilou e apetrechou especialmente três salas para o trabalho e atividades de aprendizagem dos surdos, uma para cada ano de escolaridade.

Mais uma vez sem diálogo, sem qualquer explicação ou justificação, o ministério decidiu transferir os alunos surdos para a Escola Secundária Jaime Cortesão, certamente uma escola com prestígio e com história, mas que não reune as mínimas condições para esta mudança, que inclusivamente põe em risco a segurança, sobretudo nos acessos.

É um edifício antigo, sem dignidade para uma escola moderna, sem luz, tão necessária aos surdos, sem o menor atrativo para estes jovens. Os alunos, os pais e os professores estão revoltados contra um ministério que não os respeita, que não acautela os seus interesses e que lhes nega o direito a uma educação de qualidade. Mais uma vez, o ministério não é a solução, é o obstáculo, é o problema.

A Brotero é vizinha e mantém uma interação muito saudável com a Escola Superior de Educação de Coimbra, que tem desenvolvido um trabalho notável na formação de professores de alunos surdos.

Se há algum pólo de referência em torno do qual seria de concentrar recursos e organizar a educação das crianças surdas, parece que seria neste espaço, sob a coordenação daquele estabelecimento de ensino superior.

A comunidade surda, para o ser, exige proximidade e interação. E exige acima de tudo respeito pelos interesses de uma população que tem o direito, ainda não reconhecido,  de participar nas decisões que lhe dizem respeito.

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