Opinião: “Desassossego – Ou a vida aos Ss”

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Diogo Cabrita

Quando cheguei a médico era o ano de 1987 e havia vínculo, estabilidade contratual, números clausus, pouquíssimos estudantes atingiam 19 valores (porque ter mais de 15 era para grande esforço e só para alguns – com brio). Mudou muita coisa na saúde com a intervenção da Escola Nacional de Saúde Pública e seus teóricos e gestores. O maior esteio da mudança é este pensamento escolar que foi transversal a Ministros e a partidos políticos. Quase todos se conhecem e quase todos comungam do pensamento comum. Por provocação direi que os Covões foram lucrativos com um gestor e o Sr Xico durante décadas. Produziam alimentos, tinham cinema, eram uma instituição de luxo no mundo da saúde. O Hospital dos Covões hoje tem as laranjas que produz podres no chão, a mata abandonada, os galinheiros desertos e o cinema soterrado por inúmeras obras. Hoje o Hospital tem mais de trinta gestores da ENSP e dá prejuízo. Podia ser demagogia se não recordasse os custos dos MCDT e o número de atendimentos. Doa a quem doer, é uma verdade parcial, como todas. Não sou contra os gestores, mas sou contra directores não avaliados, estudos nenhuns do impacto das medidas, zero resultados das observações, inspecções falsas e caladas. A politização, a instrumentalização dos lugres de chefia foi notória nas ARS onde muitos são primos e tios de outros que já lá trabalhavam, onde o PSD e o PS foram dando emprego a amigos e familiares de correligionários independente de qualquer mérito que teriam.
A saúde está pois como a CP, os Municípios, como as escolas e como as diversas instituições públicas. Há serviços delapidados de orçamento e há chefias intermédias desrespeitadas por medíocres “gestores” criteriosamente escolhidos por razões do cinzento” centrão”.
Os Covões são aqui exemplo. Fechou-se a urgência para melhorar custos das instituições. Depois abriu-se com bochechos, depois abriu-se umas horas mais.
A instituição vê agora medidas quase risíveis: retiraram-se agora camas à cirurgia e abre-se a sua exposição em urgência. Por acaso quando o grupo cirúrgico precisa de mais camas porque aumenta o volume de atendimentos. Não é para eu entender. Fazem-se obras no Serviço de Cirurgia para dar lugar à Medicina Interna quando se tem quatro enfermarias fechadas que pertenceram à Medicina. Ou seja, obras num lugar onde houvera obras recentes e destruição de uma unidade funcional e não onde elas fariam sentido. Não consigo entender. Há um espaço de investigação inaugurado com uns “Nóbel Price” que nunca foi usado. Terá o Nobel da inutilidade um dia. Uma enfermaria pronta e adequada, mas não serviu para a Medicina Interna. Vai-se destruir a Cirurgia Geral Homens. Eu não alcanço. Desrespeitou-se a História e a tradição. Já tinha havido em 2011 um abuso de poder com o assalto aos bens da Instituição Covões que foram levados para os HUC. Os Covões tinham há 14 anos todo o trabalho clínico sem processos em papel, com uma organização exemplar de serviços e de atendimentos. Agora são acoplados a um comportamento de escrita à mão e de completo desrespeito por normas do Ministério nas contractualizações de informática. Programas concebidos ao sabor de Professores em vez dos sistemas recomendados para todos os Hospitais portugueses.
O “mando dos tiranos” em vez dos processos democráticos e de mérito. Exemplo cómico: A “faculdade de medicina da UC está com excesso de alunos” disse um Professor. Fui ver e afinal tem um rácio baixíssimo se comparado o número de alunos/professores na europa. As verdades convenientes de alguns. Quantas inspecções fizeram a ARS, a ACSS, a ERS, o IGAS aos HUC? E aos Covões? Mas fazem duas e três por semana a unidades de cuidados continuados. Tudo isto deriva de gestores sem poder, sem experiência, carregados de normas e de orientações, de Doutores com excesso de arrogância e de uma inqualificável ausência de avaliação. Por exemplo, o número de enfermeiros e de auxiliares por doente nos Covões sempre esteve mais próximo da qualidade medida em escaras de decúbito e em queixas de doentes do que nos HUC. Opção? O número destes trabalhadores foi sendo reduzido ao nível do HUC. Não compreendo. O crescimento para onde havia espaço teria mais qualidade que o crescimento para o beco. Assim concentrou-se um volume doente de instituições de saúde em Celas e abandonou-se a quinta enorme dos Covões. A bandeira do desrespeito sobre a história é o edifício do antigo Pediátrico que jaz morto e apodrece sem destino e sem orientação num espaço nobre da cidade. É uma bandeira da gestão medíocre. Vem aí o abandono da Maternidade Bissaia Barreto. Aproveito para uma vaidade e uma denuncia. Em 2007 com o meu esforço e o de alguns jovens especialista e internos construímos a Unidade de Cirurgia de Ambulatório que hoje é incontornável no CHUC. Fomos contra a corrente e com o apoio do Dr Carlos Magalhães e do Dr Rui Pato. É uma Unidade exemplar onde ninguém tem horas extra e onde ninguém recebe prémios de produção. Construí isso e disso fui afastado pela gestora dos Covões da altura. Dei-lhes três milhões a ganhar e recebi um pontapé infame. Não sou o último! Inesquecível comportamento da arrogância e a intolerância. Esses Covões que ajudei a fazer são o que nos mantém vivos.
Mas entretanto criam-se regras onde ninguém avaliou. Insisto em que a criação da exclusividade, os salários por contrato, os ganhos extra com horas extraordinárias não serem iguais para todos, são parte daquilo que nunca foi estudado. Quem disse que os Centros de Referência em comparação com outras unidades semelhantes são melhores em Coimbra? Quem provou de forma séria que os Centros de Saúde são melhores ou piores que as USF? Os dados custam muito a surgir, mas a diarreia legislativa da DGS e as opções do Infarmed, da ACSS e outras surgem como necessidades políticas ao saber do jornalismo mais odioso e ridículo que nos cerca. Para os que trabalham no sistema público é preciso serenidade, liderança, coerência, noção de custos, noção de alternativas e de soluções lógicas e com um único fim: melhorar quem procura as instituições e orientar quem não sabe o que fazer. Imaginem que estão erradas as opções por triagem de Manchester, a forma como criamos horários, a criação de centros de excelência. Não digo que estejam todas mal, mas coloquemos alguma dúvida nestas opções: então estamos a caminhar para o abismo? Isso é o que sentem muitos funcionários públicos. Notem que tenho um profundo respeito por algumas pessoas e médicos dos HUC, lugar onde há imenso mérito e sabedoria, um dia nomeio todos numa lista incrível.

One Comment

  1. Joana Pimenta says:

    Sim, poderemos estar a caminhar para o abismo.
    Olhe, Sr. Diogo Cabrita…
    Mantenha-se firme na boa diferença.


    Votos de Boas Festividades e Bom Ano Novo. 🙂

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