Opinião Salsichas – Parte 3 de problemas na saúde

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A grande realidade é que a saúde converteu-se num sistema ao estilo da Mc Donald. Todos os actos e procedimentos e diagnósticos são codificados no ICD 10. Todos os serviços são auditados, ou querem ser, por normas ISO, por vezes por certificadores internacionais. Todos os profissionais são formatados e formados em escolas,
Temos um sistema repetitivo, verificado, com inúmeros protocolos e consentimentos, regras muito específicas e sobretudo cada dia mais mecanicista. Os programas pretendem mais vendas, menores custos, mais eficiência, menos consumo, mas simultaneamente mais segurança para o prestador, e em tese mais segurança para o consumidor.
De facto, a pressa é inimiga da qualidade, embora quanto mais se faz e se repete menos nos enganamos, menos erros existem. A saúde Mc é uma ideia que eu próprio alimentei durante décadas. No fundo, mais gente pode ser tratada. Conseguir por preços menores, objectivos mais vistosos, é um sonho de qualquer empresário. Os problemas surgem nas altas mais precoces, nos internamentos que estão sob a pressão de novas chegadas, de ritmos de produtividade aumentados, com menos camas, com menor relação profissional/doente. As rotinas tornam-se cegas e portanto fazem-se inúmeros exames em excesso, criam-se mecanismos protocolados que são cegos à individualidade, desenham-se normas protectoras da decisão, mesmo que incluam inocuidades, desperdícios, crimes ao ambiente. A saúde está carregada de parvoíces como a esterilização do ânus ou da boca (obviamente impossíveis porque a sua existência é imunda e assim deve ser), os pensos estéreis em feridas conspurcadas, a utilização de material esterilizado para fazer um toque rectal. Há toneladas de desperdício nas compras de material com datas de utilização curtas. O lixo gerado por um acto médico é impressionante. Em rigor nunca se provou que houvesse mais infecções ou problemas, quando a medicina se exercia nos consultórios não escrutinados pela ERS ou a ARS ou a ACSS.
A fábrica da saúde não é um serviço nacional. A fábrica é um negócio onde milhares de pessoas entram carregadas de medos gerados por informação estúpida e viciosa (só se fala do mau e do que corre mal) e por essa razão se entregam a outra crença: querem informações (consentimentos informados) de que não percebem patavina. Outra crença vem das farmacêuticas e da tecnologia, que contra todo o ruído do medo, arvoram que a saúde está muito evoluída. De facto não está, e pode correr mal tudo aquilo que se faz. Uma punção, um exame simples, uma cirurgia, podem correr mal. Não que maioritariamente seja assim, mas inevitavelmente, por vezes, não é como se quer. Uns ganham milhões nas vendas- querem que até os que têm saúde procurem a fábrica. Outros ganham produzindo números e incentivam actos que se podiam evitar. Outros procuram conforto para as frustrações na fábrica.
Uns desejam o impossível, arriscam o imponderável, pedem a ultrapassagem dos limites médicos. Os trabalhadores pedem exames em excesso para se protegerem das decisões.
Os políticos tornaram este assunto um campo ideológico. Tudo de graça para todos é uma corrida para a bancarrota da prestação. A saúde é como uma fábrica gerida por um deslumbrado. As carnes entram para fazer salsichas em grande número e já não importa a forma. Importa o registo, a escrita e a contabilidade, mesmo que o cuidar se perca, mesmo que a mão carinhosa invisível desapareça. Como se aumentam custos materiais, reduz-se em pessoal. Não se promove o incentivo à prestação de qualidade. Não se premeia os que melhor trabalham e cuidam. Não se opta pelo melhor, mas pelo mais barato. Este paradigma Mc Donald é uma construção ideológica de uma esquerda que acredita que somos todos iguais, que podemos criar fórmulas igualitárias, repetíveis e sobretudo que podemos padronizar tratamentos – a tal evidência. A medicina baseada na evidência é uma alegoria com custos demenciais que vai conduzir à destruição do SNS por uma via sofisticada. Eu já encontrei essa outra estrutura na Arábia Saudita quando um administrador observa, manuseia os seguros que o cliente paga e decide para o médico o que pode fazer ou não. A prestação é gerida pelo pagador – o seguro. Os médicos estão a ser desenhados neste padrão. As escolas não se importam com o ensino dos custos, com a necessidade de gestão clínica, porque agora o importante é sugar do pagador o mais possível, gerindo do menu aquilo que se aplica melhor.
Com pena vos digo que conheci o sistema alemão, francês, saudita, espanhol , privado e público e na realidade pouca gente me pergunta alguma coisa ou se preocupa com o saber experienciado. Eles sabem tudo! O que nos espera é muito pior do que aquilo que já tivemos!

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