Opinião – Um país estranho

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Aires Diniz

Aires Diniz

Apetece-me escrever sobre Portugal como se fosse um estrangeiro, desapiedado ou não com a situação pátria, para falar dela com um olhar distante que a permita entender sem qualquer enviesamento.

Apetece-me não ser um José Luís Peixoto que nada saiba de português, que nos observe só pelos comportamentos de quem tenta sobreviver a um terrível governo, aquele que todos os dias inflige em nome de algo distante mais umas restrições ao nosso viver. Apetece-me mais ser um “Maurício Bacarisse ((que) no romance Los terribles amores de Aglibero y Celedonia, de 1931, no qual o casal protagonista visita, numa cidade sem nome que responde à realidade de Coimbra, o «gran poeta parnasiano», que não é senão o próprio Eugénio de Castro)”.

Tentaria ser assim alguém que busca o melhor de um povo e da sua cultura. Contudo, o romance acabado de ler retrata só um homem indeciso no meio dos seus amores, que tenta, no fim, condicionar o novelista para dar um final mais favorável ao personagem que incarna. Infelizmente no tempo que vivemos, todos somos personagens de uma história em que nem sabemos qual é o papel que nos destinam. Todos os dias o governo nos muda a coreografia no palco em que temos de deambular, dando-nos sempre pouca autonomia. Ou seja, nenhuma.

Há dias os novelistas reuniram-se para repensar os papéis que nos querem atribuir. E consideraram que era uma grande violência para eles serem citados nos seus pensamentos em voz alta, que iriam tonitruar, mas não queriam que ninguém os ouvisse para além dos sábios que em surdina querem decidir os nossos destinos.

Contudo, todos sabemos que estes novelistas apenas pretendem diminuir os cachets dos atores da vida real. Pouco lhes interessa os nossos amores e desamores, os nossos filhos, netos e o mais que for sonho de vida feliz. Querem apenas transformar-nos em escravos dos seus caprichos e, até, não querem que o saibamos. Querem por agora repensar só o Estado Social sem prévia audiência dos que o pagam e têm o direito de o usufruir.

Querem fazer tudo bem caché para que ninguém saiba nada do que disseram, temendo serem mal vistos e/ou serem responsabilizados pelas consequências do que propuseram. De facto, o tempo, para eles não está para confiar na sorte. Sabemos demais acerca do que a justiça tenta descobrir e também acerca dos “buracos”, que esta gente “clandestina” não quer que se saiba e que se sentiria muito incomodada se as suas atividades fossem públicas. Há, na verdade, demasiados fumos de delapidação de recursos nos bancos e grandes empresas para que confiemos neles. Não há enfim justificação nenhuma para que a “ciência” se limite a alguns.

De facto, a economia nunca foi uma ciência oculta. E os atores que não sabem o seu papel nunca são bons atores. Não cometamos por isso mais erros.

Exijamos saber qual é o nosso papel.

1 Antonio Sáez Delgado, posfácio de – Fernando Pessoa, Ibéria e o Fantasma de Espanha in Fernando Pessoa – Ibéria – Introdução a um Imperialismo Futuro, Ática Prosa, Lisboa, 2012, pp. 229-253, p. 231.

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