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Saúde mental, jogo e dependência

07 de outubro de 2026 às 10 h45

A adolescência e o início da idade adulta são períodos decisivos na consolidação da identidade, da autonomia, da capacidade de decisão, do controlo dos impulsos e das formas de relação com os outros. Essa construção faz-se hoje num mundo particularmente exigente. As transformações na vida familiar e social alteraram formas de convivência e podem influenciar, desde cedo, a qualidade dos vínculos afetivos. A instabilidade económica prolonga dependências e adia projetos de autonomia; a precariedade, a pressão para ter sucesso, a exposição permanente nas redes sociais e a incerteza quanto ao futuro podem potenciar insegurança, frustração e sentimentos de falta de controlo.

É neste contexto que o jogo, proporcionando excitação, distração ou a ilusão de uma solução rápida para dificuldades reais, pode ultrapassar o entretenimento. Hoje cabe no bolso… está no telemóvel, disponível a qualquer hora e associado à sedutora ideia de ganhar dinheiro rapidamente, com pouco esforço. Esta acessibilidade constitui mais um fator de risco para a evolução progressiva e pouco percetível do jogo ocasional para o jogo problemático.

Segundo um estudo do Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências, I.P. (2024), “os resultados (…) permitem constatar que, no que aos comportamentos aditivos entre os alunos do ensino público (13-18 anos) diz respeito, o cenário é hoje globalmente menos gravoso (…). Ainda assim, há fenómenos que, face ao estudo anterior, se tornaram mais prevalentes, como (…) o jogo a dinheiro”.

Os sinais de alarme tornam-se evidentes quando o pensamento começa a ser dominado pelo jogo, aumenta a necessidade de apostar, insiste em recuperar perdas, ocultação do comportamento, problemas financeiros, pedidos frequentes de dinheiro ou desaparecimento de dinheiro e objetos em casa.

Concomitantemente, o rendimento escolar e as relações familiares e sociais podem também começar a ser afetados. Ansiedade, depressão, isolamento, culpa, vergonha e baixa autoestima podem acompanhar um ciclo em que se joga para aliviar o sofrimento e o próprio jogo acaba por agravá-lo.

Prevenir exige começar cedo: promover literacia sobre o jogo e os seus riscos, reforçar a proteção dos mais jovens face à publicidade e promoção das apostas, fortalecer vínculos familiares e sociais através da proximidade e da participação em atividades partilhadas e estimular formas saudáveis de lidar com as dificuldades do dia a dia.

Quando surgem sinais de perda de controlo, problemas a nível escolar, familiar, social ou financeiro, não se deve esperar que “passe”. Falar sobre o problema e procurar ajuda especializada precocemente pode evitar que um comportamento de risco evolua para uma situação mais disfuncional.

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