Opinião: “O teatro da política no período eleitoral”
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Na década de 1990, o politólogo italiano Giovanni Sartori alertava para os riscos da transformação da política em espetáculo mediático, guiado pela lógica da imagem em detrimento do conteúdo. O que começou com a televisão – Sartori designou o fenómeno como “videopolítica” – tem-se intensificado nos últimos anos com a emergência da internet e expansão das redes sociais.
Num cenário dominado por câmaras, feeds, algoritmos, interações e emojis, o período eleitoral deixou de ser tempo de balanço, tornando-se, cada vez mais, num dos momentos mais performativos do teatro da política: obras públicas e promessas de um futuro melhor brotam apressadamente, num esforço para causar impacto visual e simular eficácia governativa.
No palco local, abundam exemplos deste fenómeno: uma desnecessária, mas visível, “requalificação” de uma rotunda em Santa Clara (o abate de seis árvores nesse processo merece uma coluna especial sobre ambiente e governação local), a abertura da Via Central da cidade, por onde ainda não circulam os meios de transporte que justificam a sua existência, e a inauguração de um parque ainda em construção no Vale das Flores. Os casos multiplicam-se à medida que se aproxima o período eleitoral.
Paralelamente, no website do Município de Coimbra proliferam notícias que procuram transmitir a ideia de uma administração dinâmica. A narrativa, inflacionada por frases como a “aprovação de anteprojetos” e por verbos que apontam para o futuro (“vai comprar”, “vai promover”, “vai acolher”), contrasta com a lentidão na resolução de problemas reais no tempo presente. A palavra “intervenção” é uma das mais destacadas, convertida em sinónimo de um progresso ainda intangível.
Não é a utilidade ou o impacto social das decisões que importa, mas a sua visibilidade imediata. O que verdadeiramente conta é o corte da fita, a fotografia de imprensa, a partilha nas redes sociais. O tempo político, ansioso por resultados visuais e eleitorais, colide com o tempo social, que exige continuidade, escuta atenta e soluções para problemas persistentes.
Mas essa encenação está longe de ser inofensiva. Quando os cidadãos percebem que as decisões públicas visam apenas o voto e não as suas necessidades, a confiança nas instituições começa a deteriorar-se. A desilusão pode não gerar necessariamente passividade, mas alimentar um desgaste da crença nos políticos como agentes de transformação coletiva, capazes de atender às nossas necessidades.
O ambicionado voto pode, assim, rasgar o pano deste teatro de sombras e revelar o vazio que a pressa e a propaganda tentaram disfarçar. Porque o valor de uma obra não se mede no momento do aplauso, mas no legado que constrói. Uma política com visão revela-se na abrangência de transportes acessíveis, na dignidade da habitação, na criação de um espaço público inclusivo, no respeito pelo ambiente e, fundamentalmente, na promoção da justiça social. Que nós, cidadãos informados, possamos olhar além do espetáculo, questionar as aparências e exigir os alicerces de um futuro coletivo, participando ativamente no debate e na fiscalização da ação política.
