Opinião: Digital mais Literati: Empresas digerati
Digerati é um termo associado a especialistas de tecnologias, indivíduos que potencialmente estão na vanguarda do desenvolvimento tecnológico, particularmente no domínio da informática. Como vocábulo aparece, de forma pioneira, em 1992, em artigo de autoria de Tim Race, escritor, compositor e letrista britânico, na revista The New York Times, para associar a informação às tecnologias.
Trata-se de uma contração entre o digital e literati, gerando o termo digerati para qualificar as empresas que colocam a informação no centro do negócio. No entanto, foi um italiano, padre franciscano e célebre matemático italiano, considerado erradamente o “pai” da contabilidade moderna, chamado Luca Pacioli ( 1445-1517 ), que através do método contabilístico dualista, inicia, conecta e explora a associação da informação com a tecnologia. Neste caso, a tecnologia seria a contabilidade.
Na época, de cariz incrementalista, sem grandes riscos conjunturais, a contabilidade mensurava a eficiência da gestão, materializada no resultado contabilístico, indicador que era considerado suficiente. No momento presente, caracterizado pela volatilidade, rarabilidade e pela incerteza oriunda de múltiplas fontes informativas, as valorizações contabilísticas são condição necessária, mas não suficiente para um processo de tomada de decisão. A contabilidade mainstream encara os ativos de informação do negócio, sob a perspetiva fiscal, e tendo por base a consideração dos ativos inseridos numa sociedade industrial, não admitindo, por isso, a sua ativação, o que seria o normal numa sociedade de conhecimento e informação.
Com o advento da informática e sobretudo do big data, assistiu-se a uma outra fusão de lexemas, tomando em consideração que a informática resulta da junção das palavras informação e automática, de que decorre o processo de tratamento automatizado da informação. O termo informático, foi criado pelo cientista de computação chamado Karl Steinbuch ( 2017-2005 ), considerado um dos pioneiros da ciência informática alemã, que inventou, em 1957, o termo informatik, como a palavra alemã para informática. A informação é a reunião ou conjunto dos dados e conhecimento organizados, assumidos como referência sobre um determinado acontecimento, facto ou fenómeno, e está especialmente orientada para a redução da incerteza ou para aprofundar os conhecimentos sobre qualquer assunto. É também admitida como um recurso que atribui significado à realidade e, para além disso, dá origem à formação do pensamento. Viabiliza ainda a resolução de problemas e o processo decisório, como base na lógica subjacente ao conhecimento adquirido através dela.
Como resultado, infere-se que, quanto mais precisa ela for melhor será a sua comunicação, e logicamente a informação é o conhecimento que se torna público. Na área da informática e das tecnologias da informação, é ainda entendida como uma agregação de dados processados por um computador, capaz de gerar resultados para um projeto específico. Posto isto, o lexema digerati inclui empresas para as quais a informação é o primeiro input e o primeiro output, e que utilizam a informação como um gatilho mental orientado para o fomento da inovação de produtos ou serviços, posição totalmente diferenciada das empresas incumbentes. Na verdade, aquelas empresas também são conhecidas como empresas data driven, info savvy ou AI first, graças ao facto de enfatizarem a informação como o seu principal ativo, ou seja, o seu bem capital ou a sua força vital.
Bizarramente, na era da informação, os ativos de informação de negócio não podem ser capitalizados nas demonstrações financeiras, muito embora, se assuma, quase unanimemente, que as empresas digerati gozam de enorme vantagem competitiva sobre as empresas analógicas, não obstante, serem proibidas, pelos standards contabilísticos do mainstream académico e das instituições contabilísticas, de reconhecer os bens informativos. De facto, todos os executivos e gestores das empresas reconhecem ou já admitem que a informação tem um impacto direto sobre o valor económico gerado pelas empresas, e assim sendo, trata-se de um bem intangível que revela potencial para alavancar a concorrência e favorecer as empresas digerati.
Em termos pragmáticos, significa que muitas empresas estão a alavancar a informação como ativo de negócio, independentemente da sua gestão, expressão e medidas contabilísticas. Traduz-se igualmente no reconhecimento de que o warehousing (base de dados) e o business intelligence, muito em voga nos fins do século passado, são, atualmente, tecnologias em obsolescência contínua, face aos algoritmos, à inteligência computacional e ao machine learning, ferramentas que produzem predominantemente informação preditiva, mas que não é contabilizada, avaliada e mensurada nos balanços tradicionais, construídos segundo as já antiquadas e obsoletas normas de contabilidade, quando estão em causa valorizações específicas e não correntes, como é o caso particular dos bens da informação.

