diario as beiras
opiniao

Opinião: Countdown

10 de abril de 2025 às 11 h08
0 comentário(s)

Desde o filme de “Le Voyage dans la Lune” ( 1902 ) de Georges Méliès, que antecipou a ideia de levar humanos à Lua, ao famoso “2001: A Space Odyssey” ( 1968 ) de Stanley Kubrick, cuja ideia de simular gravidade em habitats giratórios está na base do desenvolvimento de futuras Estações Espaciais, o cinema sempre foi uma fonte de inspiração para a exploração espacial.
Mas um dos exemplos mais inesperados é o da contagem decrescente nos lançamentos de foguetões — o clássico “10, 9, 8…” até ao lançamento. Sim, o chamado countdown nasceu no mundo da sétima arte. A primeira utilização conhecida de uma contagem decrescente foi no filme mudo de ficção científica “Frau im Mond” (A Mulher na Lua), realizado por Fritz Lang em 1929. O consultor técnico do filme foi o cientista alemão Hermann Oberth, um dos pioneiros da astronáutica. No filme, a contagem decrescente foi usada como um dispositivo dramático para criar suspense antes do lançamento do foguete. Tratando-se de um filme mudo, os números aparecem no ecrã, um por um.
A ideia foi adoptada por engenheiros de foguetes, em particular durante o desenvolvimento dos foguetes V-2 na Alemanha nazi nos anos 1930 e 40, e manteve-se nos programas espaciais dos Estados Unidos e da União Soviética.
A contagem decrescente revelou-se útil do ponto de vista técnico, por várias razões. Primeiro, ajuda a organizar as operações antes do lançamento (verificações finais, pressurização de tanques, ignição de sistemas, etc.). Segundo, garante a coordenação entre todas as equipas envolvidas. Terceiro, fornece um ponto de sincronização exacto para a activação automática do foguete. Hoje em dia a contagem decrescente é mais do que tradição — faz parte de um protocolo rigoroso de lançamento, com chamadas de tempo como “T menos 10 minutos, início da verificação dos sistemas de navegação”, e assim por diante.
Mas porquê decrescente? Se pensarmos bem, uma contagem decrescente evita confusão sobre quando exatamente o lançamento ocorre: é quando se chega ao zero. Em termos psicológicos, o aproximar do zero foca a mente no momento crítico, um bocado como as “pancadas de Molière” no teatro.
Voltando ao cinema, o sucesso da contagem descrescente estravazou para outras aplicações, sendo especialmente útil para gerar suspense quando algo está prestes a explodir. O meu favorito é o teste da primeira bomba atómica no filme “Oppenheimer” ( 2023 ) de Christpher Nolan, onde o countdown é particularmente intenso, terminando num silêncio ensurdecedor.

Autoria de:

Pedro Lacerda

Deixe o seu Comentário

O seu email não vai ser publicado. Os requisitos obrigatórios estão identificados com (*).


Últimas

opiniao