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Opinião: Chocolate 2.0

07 de abril de 2025 às 09 h28
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Chocolate sem cacau? Bem-vindos ao futuro (amargo) da doçaria. Na Suíça, onde o chocolate é mais património do que produto, está a acontecer uma pequena revolução: o chocolate sem cacau chegou ao mercado. Sim, leu bem.

Feito com cevada fermentada, sementes de girassol ou até feijão-fava, este “chocolate” é a resposta da indústria a dois problemas bem reais: o preço recorde do cacau e o impacto ambiental do seu cultivo. A barra pioneira foi lançada pela suíça Stella Bernrain. Outras startups como a britânica Win-Win (com apoio suíço do grupo Edmond de Rothschild) e a Nukoko estão a apostar em alternativas engenhosas e sustentáveis, com acordos já firmados com gigantes como Coop e Dr. Oetker. Sejamos justos, não estamos a falar de sucedâneos duvidosos.

Há ciência séria por trás destas fórmulas, com mais de mil testes até encontrar algo que engane o paladar. Mas há aqui um dilema cultural delicioso: pode uma nação que ergueu museus ao chocolate aceitar uma versão “sem alma”, sem o cacau que moldou séculos de tradição helvética? E mais, será que estamos preparados para redefinir o sabor da infância, da Páscoa e do Natal?

O que está em causa não é apenas a inovação alimentar. É o futuro do consumo responsável. 80% da floresta tropical da África Ocidental foi destruída, em grande parte, para cultivo de cacau. O mercado reage — e bem — mas fá-lo em silêncio, sem declarar guerra à tradição. Em vez disso, propõe-nos um novo pacto: continuar a saborear… sem destruir. Talvez o futuro do chocolate esteja menos no cacau e mais na coragem de repensar tudo aquilo que damos por garantido. E quem sabe se, um dia, a Suíça será conhecida por inventar o chocolate… outra vez.

Autoria de:

Rui Duarte

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