Opinião – A construção de necessidades
Diogo Cabrita, médico
Vivemos uma das maiores mentiras do mundo, na construção de exigências sem fundamento, sem prova estudada, que depois servem de respaldo a certificações e exigências que garantem negócio sempre aos mesmos. Estudos sobre a reparação automóvel, ou a mercearia de bairro, ou o consultório médico, ou o escritório de advogados, ou o pequeno café de esquina não foram necessários para legislar impossibilidades contra a sua existência. O estado ao serviço do grande capital ( pareço o líder da CDU a falar) constrói necessidades não sustentadas e dita exigências sobre segurança para evitar problemas onde nunca estudou se os havia, onde nunca verificou se provocavam dano. A logística é a mesma de sempre. Tens de ter quarenta coisas específicas, fazer trinta obras no mínimo, adquirir dez ou doze certificações que colas na parede e então podes abrir um negócio. Para ser mais difícil, tens de pagar a vários responsáveis técnicos para que se cumpram mais exigências. Imaginem um consultório de um urologista. Para colocar uma algalia tem que ter casa de banho de deficientes, não pode estar num prédio, tem de ter gases medicinais, desfibrilhador, garantir que há certificação de bombeiros, há inscrição na ERS, há fiscalização da Saúde pública, farmácia para compra de Lídocaina e farmacêutico a certificar a compra, ter um director clínico. É uma algalia caríssima!
Agora que conseguiu endividar-se para tudo aquilo, tem de garantir as compras de utilizáveis em empresa certificada e possuir mecanismos de esterilização bem como material adequado de transporte de consumíveis. Algalia a encarecer!
Houve algum problema no passado? A prática médica nos consultórios gerou mais queixas que nos hospitais? O senso dos médicos era de tal modo incompetente que faziam tudo sem se precaver de acidentes ou de problemas? Há estudos que justifiquem as exigências actuais? Há algum respaldo em decisões de tribunal que os consultórios médicos eram a causa dos problemas na saúde em Portugal? Em França o doente vai ao consultório do especialista e o dinheiro segue este movimento. O mercado dita o sucesso de quem o merece.
A minha ideia é que o consultório deve ter a possibilidade de adquirir directamente a farmácias, esterilizar em unidades credíveis, possuir as condições espartanas da higiene, respeitar regras de segurança e instalações sensatas de exequibilidade, mas depois, o resto pertence à escolha dos doentes e às óbvias consequências do registo dos livros de reclamações.
As entidades reguladoras devem estudar os assuntos e verificar vantagens e desvantagens dos métodos de trabalho e só depois escolher caminhos. Hoje a evidência é do empurrar para os braços dos grandes grupos económicos, que controlam a saúde encarecendo tudo, e convertendo as profissões liberais em assalariados dos sessenta mil donos de sessenta por cento do capital mundial.
Triste é o silêncio das ordens das profissionais liberais quando surgem mais leis anti liberais. Triste é assobiar para o lado quando surgem leis corânicas para castigar os resistentes. Os Talibans vestem agora de vermelho e usam lenços palestinos e adereços de esquerda para estar do lado do grande capital, cumprindo com os seus desígnios e o seu inteligente discurso de apagamento dos pequenos.
Outubro de 2025 viu publicar mais um texto baseado na cultura da certificação para matar o que sobra da actividade liberal individual. As exigências garantem o endividamento para a vida e sem a garantia repouso de novas leis para dificultar o espartilho em espiral que sufoca a opção dos consultórios.
A construção de certificações e exigências, ou recomendações, ou directivas para situações não estudadas encareceu a saúde e bloqueou a iniciativa privada. Os médicos, os pequenos empresários e outros que arriscam deviam solidificar uma posição e enfrentar esta cultura de funcionários das grandes empresas, instalados que estão nos partidos na Europa. O parlamento europeu é uma família de assalariados e dependentes do grande capital que nunca arriscou o seu dinheiro,nunca teve a sensibilidade de quem se endividou para construir um negócio. Todos a viver do emprego gerado pelos Estados ou pelos donos dos Estados.
Uma triste realidade que cada vez aperta mais.

