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O problema não é o corpo, mas o olhar que se constrói sobre ele

18 de setembro de 2026 às 10 h45

Sydney Sweeney é um dos rostos mais conhecidos da nova geração de Hollywood. Recentemente, a atriz emprestou a sua imagem a uma campanha publicitária em que, sob o mote “Just sports” (“Apenas desporto”), aparece nua, ou quase nua, ora deitada sobre uma mesa de bilhar, ora sentada num cesto de basquetebol, para divulgar os serviços de uma empresa norte-americana de apostas desportivas. A polémica não tardou, com várias atletas de diferentes modalidades a erguerem a voz contra a hipersexualização das mulheres no desporto.

Ponto essencial: a Sydney Sweeney é livre de mostrar o seu corpo como, quando e da forma que quiser. O corpo é dela e ela tem todo o direito de o usar como bem entender. Outro ponto essencial: não há nada de errado com o corpo feminino – pelo contrário! – nem há motivo algum para escondê-lo. O corpo feminino é uma beleza e em nada constitui motivo de vergonha. Descentremos o debate da protagonista: quem é que criou esta campanha, com que objetivos comerciais e que mensagem queria transmitir? A discussão está focada na nudez de Sweeney e distrai-se da lógica comercial da ação: a utilização de uma linguagem publicitária que associa desporto, corpo feminino e sexualidade num mesmo produto. E parece-me que o erro está aqui.

Há uma diferença, e significativa, entre a presença do corpo feminino no desporto e a sexualização do corpo que pratica desporto. Dito de outra forma: o problema não é o corpo, mas o olhar que se constrói sobre ele. Não é a sensualidade que diminui a posição das mulheres no desporto. Isso acontece quando essa sensualidade é a principal lente através da qual as atletas são vistas – e mostradas ao mundo. A campanha utiliza a estética do desporto para sexualizar um corpo feminino, reproduzindo uma certa maneira de representar as mulheres no universo desportivo.

O contexto da campanha é o desporto: não se trata de uma campanha de lingerie, perfume ou roupa, é uma ação que promove apostas desportivas. Como sugere o próprio slogan, é “apenas desporto”. Mas Sweeney não aparece de fato de banho ou de calções numa referência ao contexto da prática desportiva, em que o corpo é o instrumento de trabalho dos atletas e não um objeto de desejo ou um produto. Quando uma mulher aparece nua, numa comunicação altamente sexualizada, numa campanha publicitária de uma empresa de apostas desportivas, estamos a estabelecer uma associação entre o corpo feminino e a forma como o próprio desporto (e a presença feminina no desporto) é vendido e consumido.

Uma mulher pode ser simultaneamente atleta e sexualmente desejada: não há nenhuma incompatibilidade nisso. Mas quando retratada no contexto do desporto, a sua sensualidade devia ser secundária. Não porque esta lhe seja prejudicial ou desfavorável, apenas porque não é relevante . Tal como não deveria ser quando falamos de atletas homens.

Uma mulher pode ser campeã olímpica, bater recordes mundiais ou tornar-se a referência internacional na sua modalidade e nada disto está dependente da sua sensualidade. Combater a objetificação não é querer que as mulheres sejam assexuadas, basta que a sua sexualidade não defina o direito que elas têm a ocupar um lugar, seja no desporto ou em qualquer outra área de atividade. O corpo de uma atleta é, acima de tudo, um corpo que transpira, que dói, que testa os limites da sua resistência a cada novo treino. E não é com essa lente que o corpo de Sydney Sweeney é retratado naquela campanha. O problema não é o corpo, mas o olhar que se constrói sobre ele.

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