Metrobus: o “nó” para desatar o futuro de Coimbra
As obras do Metrobus são hoje uma marca incontornável na paisagem de Coimbra e da sua região. Entre o pó das empreitadas e os inevitáveis desvios de trânsito, que nos testam a paciência, impõe-se uma pergunta fundamental: estamos a construir apenas um canal de transporte ou a desenhar a cidade e a região metropolitana do futuro?
O desafio está em perceber como o território, a mobilidade e a acessibilidade se devem conjugar. É aqui que entra o conceito de Transport-Oriented Development (TOD), que propõe estruturar o desenvolvimento urbano em torno de estações de transporte coletivo frequente e com capacidade, promovendo comunidades de proximidade – verdadeiros bairros “de 15 minutos” – onde uma diversidade de funções como trabalho, comércio e lazer estão à distância de uma curta caminhada, e a boa acessibilidade a toda a cidade é garantida através de transportes coletivos sustentáveis e eficientes.
A ferramenta mais usada para analisar TOD é o modelo Node-Place (Nó-Lugar), que avalia se uma estação funciona apenas como um nó de transportes (Nó) ou se a sua envolvente é também um local vibrante, pleno de vida e atividade (Lugar). Baseia-se no cálculo de umas dezenas de indicadores, como a abrangência e frequência dos transportes coletivos, as condições para a mobilidade suave, e a densidade e diversidade de usos. Depois, sintetizam-se todos estes indicadores em apenas dois índices – um de Nó e outro de Lugar – e mapeiam-se os resultados de cada estação num gráfico (o valor de Nó no eixo Y e o de Lugar no eixo X). No âmbito da Tese de Mestrado em Engenharia Civil, da aluna Patrícia Bretas, que orientei, aplicámos este modelo ao caso do Metrobus da Região de Coimbra. Os resultados revelam conclusões fascinantes e, acima de tudo, validam decisões que outrora foram polémicas (no gráfico, cada símbolo representa uma estação).
As estações da Solum e da Fernando Namora (assinaladas com uma mancha verde, no gráfico) destacam-se pelo equilíbrio entre vitalidade urbana e relevância no sistema de transportes. Ao contrário do antigo ramal ferroviário da Lousã, que passava “à margem”, o Metrobus atravessa o coração da Solum – o bairro mais denso e populoso da cidade e rico em funções urbanas, como ensino, comércio, e desporto. Os resultados do nosso estudo confirmam que este desvio do traçado histórico foi uma opção certeira (congratule-se o Prof. Álvaro Seco): entre as 42 estações previstas para o Metrobus, são precisamente estas duas que obtêm maior pontuação como “lugar”, num saudável equilíbrio com a função de acessibilidade. De forma idêntica, o modelo salienta que a futura Linha do Hospital se desenrola em áreas urbanas equilibradas (que surgem representadas com uma mancha azul numa zona “central” do gráfico e, portanto, em equilíbrio).
Por outro lado, os resultados também expõem fragilidades. Como seria de esperar, as estações do troço suburbano (assinaladas com uma mancha vermelha) revelam maior “dependência”, pois possuem menor expressão enquanto nó e lugar. Mais relevante ainda, as estações Coimbra-B, Casa do Sal e Açude (assinaladas a roxo, no canto superior esquerdo do gráfico) destacam-se como fortes nós de transporte, mas com fraca integração urbana. Longe de ser um problema, é uma oportunidade: este resultado reforça a reivindicação do Município de Coimbra de enquadrar a nova estação intermodal, associada à Alta Velocidade ferroviária, num Plano de Pormenor que transforme a entrada norte da cidade, atualmente fragmentada e congestionada, num espaço urbano qualificado. Reconheça-se o anterior executivo municipal por esta exigência junto da IP (que depois a replicou noutros contextos) e o atual, desde já, pelo prosseguimento.
O sucesso inicial do Metrobus – preferido por cerca de 10 mil passageiros/dia, mesmo com as vicissitudes inerentes ao arranque de um sistema desta complexidade – reforça a expectativa do seu pleno funcionamento e expansão a novos municípios. O Metrobus será a espinha dorsal de uma mudança de paradigma, obrigando-nos a repensar a rede dos SMTUC, a integração da bilhética e, acima de tudo, toda a mobilidade regional.
Melhor do que tentar prever o futuro, é construí-lo com engenho e visão estratégica. Coimbra tem hoje a oportunidade de se transformar numa verdadeira região metropolitana, pioneira na qualidade de vida, na sustentabilidade e na inovação urbana. Que saibamos todos, cidadãos e decisores, “desatar o nó” e transformá-lo num lugar de excelência para viver!
