Desassossego
Esta breve crónica não é uma análise ao livro, um diário íntimo, escrito por Bernardo Soares e editado apenas em 1982 (quase 50 anos após a morte de Fernando Pessoa). A palavra surge-me como mote para este ano que arranca em convulsão. Se internacionalmente, Trump lançou mais caos com o seu apetite por recursos e territórios, por Portugal, é a disputa presidencial que marca a agenda.
A reflexão que trago é: como é que esta eleição poderá mudar o funcionamento da nossa sociedade. O Chefe de Estado em Portugal tem funções muito bem definidas e claras: representação, garante e comando. “Representa a República Portuguesa, garante a independência nacional, a unidade do Estado e o regular funcionamento das instituições democráticas e é o Comandante Supremo das Forças Armadas. Como garante do regular funcionamento das instituições democráticas tem como especial incumbência a de… defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição…”
Analisando estes 3 papéis principais, o comando militar vai assumir uma importância decisiva no contexto da NATO e liga-se à representação diplomática: garantir que o país está na mesa de negociações e que as decisões sobre temas como a Ucrânia, Gronelândia e outras não comprometem Portugal nem a Europa. No plano interno, deverá ser árbitro do sistema democrático, garantindo a separação de poderes e a soberania nacional.
O enunciar destas responsabilidades é suficiente para concluir que um candidato mitómano, que pretenda “destruir o sistema”, não é sequer qualificado para o cargo. A seriedade desta eleição não pode ser menorizada a uma suposta decisão entre “esquerda e direita”, nem envolta em retórica que pretende confundir, exaltar medos e aprofundar divisões sociais. A minha opinião é que não podemos ter neste papel alguém que construiu a sua carreira na polarização, no confronto e na deslegitimação das instituições.
Apenas posso imaginar o pesadelo de o ter neste papel, ampliando a ira, transformando qualquer veto num palco para comícios mediáticos, criando crises institucionais como instrumentos de chantagem constante.
Defendo que só com a defesa da verdade, da dignidade individual e do respeito pelo outro, podemos construir uma sociedade justa e responsável. Neste momento estamos perante 2 personalidades muito distintas, que defendem visões da sociedade quase antagónicas. Apelo a que não nos deixemos ludibriar por falácias, que não nos conformemos com novilinguismos como o “jornalixo”, nem que normalizemos o insulto.
Para reflexão, recomendo a leitura de 2 clássicos: 1984 de George Orwell e Fahrenheit 451 de Ray Bradbury. São livros de ficção, mas que antecipam partes da realidade em que vivemos hoje, amplificada pelo poder das plataformas digitais: em 1984, o “Ministério da Verdade” era responsável por reescrever constantemente a história para a adaptar à narrativa do partido político no poder. Hoje assistimos à manipulação de factos em tempo real e aos algoritmos das redes sociais a amplificar essa desinformação. A ideia de que “quem controla o passado controla o futuro” deixou de ser ficção e passou a ser estratégia.
Este é não o momento de ficar a meio da ponte ou de se abster. Voto Seguro.

